Adriana De Luca
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Adriana De Luca

Paulistana, nascida e criada na Zona Leste. Há mais de 15 anos cobre segurança pública. Explica investigações e crime organizado para além dos fatos

“Esse cara é um louco”, diz áudio atribuído a Isabelle antes da morte

Gravação foi enviada a familiares no dia em que estudante morreu; polícia investiga possível violência psicológica e induzimento ao suicídio

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Um áudio atribuído à estudante Isabelle Caracristi, de 22 anos, enviado a familiares horas antes de sua morte, traz um relato sobre o comportamento do namorado, João Munhoz Neto, de 34 anos.

Na gravação, Isabelle afirma: “Esse cara é um louco”. Ouça: 

A mensagem foi enviada ao primo da estudante e a outras pessoas da família no dia 13 de setembro, data em que ela morreu. O conteúdo agora passa a ser mais um elemento a ser considerado pela investigação, que apura as circunstâncias da morte e a possível ocorrência de violência psicológica e induzimento ou instigação ao suicídio.

No áudio, Isabelle se refere ao namorado e afirma, em diferentes momentos, que ele seria “um louco”.

Em outro trecho, Isabelle tenta explicar o que, segundo ela, seria uma “prova” desse comportamento. Ela diz que não podia sequer ir à farmácia sem que o namorado demonstrasse ciúmes. Segundo o relato feito no áudio, quando alguém olhava para ela, João “olhava feio” e, em algumas situações, “dava murro na mesa”.

A íntegra do conteúdo deve ser confrontada com o arquivo original e com os demais elementos reunidos pela polícia.

Áudio foi enviado horas antes da morte

Segundo a investigação, Isabelle enviou mensagens à mãe por volta das 19h do dia 13 de setembro. Entre elas estava a frase “mãe, te amo”. A perícia estima que a morte tenha ocorrido às 20h40, cerca de uma hora e 40 minutos depois.

Naquele dia, de acordo com a cronologia apresentada pela polícia, João deixou o condomínio às 18h32. Às 19h12, Isabelle entrou sozinha no elevador e seguiu para o rooftop, no 23º andar.

A jovem permaneceu na cobertura por aproximadamente uma hora e 28 minutos antes da queda.

Segundo a Polícia Civil, durante esse período ela permaneceu conectada ao celular e trocou mensagens. O aparelho estava no bolso da estudante quando ela caiu e foi encaminhado para perícia, com preservação da cadeia de custódia.

Perícia diz que Isabelle se lançou do prédio

Nesta quarta-feira (23), a Perícia Forense do Ceará apresentou a conclusão de 11 laudos produzidos sobre o caso.

Os peritos afirmaram que Isabelle sofreu uma “precipitação voluntária”, termo técnico usado para indicar que ela própria se lançou do rooftop.

A análise dos vestígios apontou uma trajetória predominantemente vertical, com cerca de três segundos entre o início da queda e o impacto.

A perícia afirmou ainda que não encontrou sinais de luta corporal no apartamento, nem marcas de agressão física prévia, lesões de defesa ou sinais de esganadura no corpo da estudante.

Quase 700 arquivos de vídeo do condomínio foram analisados e, segundo a Pefoce, não apresentaram sinais de adulteração.

O rooftop, porém, não tinha câmera de segurança. Por isso, não existe uma imagem do momento exato da queda.

Os exames toxicológicos também deram negativo para álcool e drogas ilícitas. Foi identificado apenas carisoprodol, medicamento de uso prévio relatado pela família.

Polícia ainda investiga namorado

A conclusão da perícia sobre a dinâmica da queda não encerrou a investigação policial.

João Munhoz Neto está preso preventivamente desde terça-feira (22). Segundo a Polícia Civil, a prisão foi solicitada para garantir a instrução criminal e a aplicação da lei penal.

Os investigadores apuram se o relacionamento era marcado por controle e isolamento e se houve violência psicológica contra Isabelle.

A polícia também investiga a possibilidade de que João tenha induzido ou instigado a estudante a tirar a própria vida.

Outro foco é o comportamento do investigado depois da morte.

Segundo a Polícia Civil, João teria retornado ao condomínio para procurar o celular de Isabelle nas áreas próximas ao local da queda. A polícia também afirma que ele teria orientado a portaria a impedir a entrada de familiares da estudante.

O apartamento teria sido limpo depois da morte e colocado à venda. Os investigadores também afirmam que João recolheu seus pertences, desativou redes sociais e deixou de fornecer pontos de contato à polícia.

O celular dele foi apreendido e passa por análise.

Família já relatava comportamento controlador

Antes da prisão, a mãe de Isabelle, Isorlanda Caracristi, já havia relatado que era contrária ao relacionamento da filha.

Segundo ela, o namoro começou em julho, quando Isabelle passou a estagiar no escritório onde João trabalhava. A mãe afirmou que percebeu mudanças no comportamento da filha e classificou o relacionamento como controlador e obsessivo.

Isorlanda também relatou que a filha passou a se afastar da família e que João teria pedido o cartão de crédito de Isabelle para realizar uma cirurgia.

A mãe afirmou ainda que não foi avisada sobre a morte da filha na noite da ocorrência. Ela só descobriu o que havia acontecido no dia seguinte, quando foi ao condomínio procurar informações depois de não conseguir contato com Isabelle.

O que a investigação tenta esclarecer

Agora, a polícia tem um conjunto de elementos que inclui os laudos periciais, imagens do condomínio, mensagens e celulares apreendidos, além dos depoimentos de pessoas próximas ao casal.

Sete pessoas já prestaram depoimento, segundo a Polícia Civil, e novas oitivas estão previstas.

O áudio atribuído a Isabelle deverá ser analisado dentro desse conjunto de provas.

A perícia concluiu que a estudante se lançou do rooftop. A questão que permanece sob investigação é o que aconteceu antes da queda e se o comportamento de João teve alguma influência sobre a decisão que levou Isabelle à morte.

O caso tramita sob segredo de Justiça.