Adriana De Luca
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Adriana De Luca

Paulistana, nascida e criada na Zona Leste. Há mais de 15 anos cobre segurança pública. Explica investigações e crime organizado para além dos fatos

Como a perícia identifica quando uma morte a tiros pode não ser suicídio

Caso de Larissa Morata, em SP, mostra como trajetória do projétil e outros exames podem mudar o rumo de uma investigação

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Em uma investigação de morte por arma de fogo, a perícia pode ser decisiva para colocar em dúvida uma versão apresentada inicialmente e abrir novas linhas de apuração. Foi o que ocorreu no caso da técnica em radiologia Larissa da Cruz Morata, de 29 anos, encontrada morta dentro de casa, em Embu das Artes, na Grande São Paulo.

Os exames periciais identificaram inconsistências relacionadas ao trajeto do projétil e à forma como Larissa morreu. O marido da vítima, o policial militar Vinicius Costa Silva, de 26 anos, teve a prisão temporária decretada. A defesa nega que ele tenha cometido qualquer ato de violência e sustenta que a morte foi uma fatalidade relacionada à retirada da própria vida.

Segundo a versão apresentada pelo policial, ele teria acordado depois de ouvir o disparo e encontrado Larissa já ferida no banheiro. A arma, que pertencia a ele, estava junto ao corpo.

A defesa também entregou à Polícia Civil mensagens e áudios anteriores à morte nos quais Larissa fazia referências à própria morte, relatava sofrimento emocional e mencionava o uso de antidepressivos. Segundo os advogados, o material está preservado e a senha do celular da vítima foi fornecida para permitir a análise integral das conversas pelas autoridades.

Mas como a perícia consegue identificar que uma morte a tiros pode não ser compatível com a hipótese de suicídio?

De acordo com Caroline Daitx, especialista em Medicina Legal e Perícia Médica, o exame necroscópico permite analisar o ferimento de entrada e eventual saída, o trajeto percorrido pelo projétil, as estruturas atingidas e outros sinais presentes nas lesões.

Esses elementos, no entanto, não determinam sozinhos se houve suicídio ou homicídio. Eles precisam ser comparados com a perícia realizada no local e com os demais exames.

A trajetória do projétil é um dos elementos importantes nessa reconstrução. O caminho percorrido pela bala dentro do corpo ajuda o médico-legista a entender a direção do disparo e quais estruturas foram atingidas. Já a posição em que o corpo foi encontrado faz parte principalmente da análise da cena.

É a combinação dessas informações que permite verificar se a dinâmica apresentada é compatível com os vestígios encontrados.

No caso de Larissa, segundo as informações divulgadas pela Polícia Civil, foram justamente encontradas inconsistências nos exames que levaram ao aprofundamento da investigação. Para Daitx, quando a versão apresentada não é compatível com o que foi encontrado no corpo ou na cena, outras hipóteses precisam ser consideradas.

A especialista ressalta, porém, que isso não significa que a perícia, sozinha, determine que houve um homicídio ou aponte um responsável. O trabalho do médico-legista é fornecer elementos técnicos para que a investigação avalie as diferentes possibilidades.

Além da necropsia, outros exames podem ser fundamentais. O exame residuográfico pesquisa resíduos relacionados ao disparo. Já a perícia balística analisa a arma, as munições, os projéteis e os estojos e pode fazer comparações entre esses materiais.

O exame de resíduos de disparo, porém, também tem limitações. Um resultado positivo não prova, sozinho, que uma pessoa efetuou o disparo. Da mesma forma, um resultado negativo não exclui necessariamente essa possibilidade. Por isso, os resultados precisam ser interpretados em conjunto com os demais vestígios.

A análise integrada é o que permite avançar na reconstrução de uma morte. Necropsia, perícia do local, balística, resíduos de disparo, depoimentos e outros elementos são confrontados para verificar se a versão apresentada se sustenta diante das evidências.

Foi essa combinação de elementos que, segundo as informações divulgadas pela Polícia Civil, levou ao aprofundamento do caso e ao pedido de prisão temporária do marido.

Para Daitx, a perícia não trabalha para confirmar uma hipótese inicial. Ela verifica se aquela hipótese é compatível com as evidências encontradas. Quando não é, a investigação precisa considerar outras possibilidades.

Assim, um exame necroscópico pode não responder sozinho à pergunta sobre como uma pessoa morreu, mas pode revelar que uma determinada dinâmica não se encaixa nos vestígios encontrados e, a partir daí, mudar o rumo de uma investigação.