Adriana De Luca
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Adriana De Luca

Paulistana, nascida e criada na Zona Leste. Há mais de 15 anos cobre segurança pública. Explica investigações e crime organizado para além dos fatos

Do roubo à revenda: como funcionava "linha de produção" de celulares em SP

Investigação do Ministério Público identificou quatro núcleos que atuavam em sequência, do furto ou roubo dos aparelhos ao desbloqueio, alteração técnica e comercialização

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Um celular roubado ou furtado em São Paulo podia passar por uma verdadeira “linha de produção” criminosa antes de voltar ao mercado.

Uma investigação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), do Ministério Público de São Paulo, identificou quatro núcleos que, segundo os investigadores, atuavam em etapas diferentes da cadeia: subtração, receptação, desbloqueio e alteração técnica e, por fim, comercialização dos aparelhos e peças.

A estrutura é alvo da Operação Frankmobile, deflagrada nesta quinta-feira (10). A investigação aponta que o celular poderia deixar rapidamente as mãos do criminoso que fez o roubo e seguir para a região central da capital, onde passaria pelas etapas necessárias para voltar a ser vendido.

Segundo o MP, a cadeia podia ser concluída em poucos dias entre a subtração do aparelho e sua recolocação no mercado. O objetivo da investigação é justamente atingir os diferentes elos que sustentariam esse ciclo, e não apenas os autores dos furtos e roubos.

1. O roubo ou furto

O primeiro núcleo é formado pelos responsáveis pela subtração dos celulares.

A investigação descreve diferentes formas de atuação e aponta que os criminosos eram abastecidos por outros integrantes da estrutura, que forneciam recursos e até bicicletas para a prática dos crimes.

Depois da subtração, porém, o celular não permanecia necessariamente por muito tempo com o autor do crime.

2. O aparelho chega aos receptadores

De acordo com um colaborador ouvido pelo MP, os celulares eram levados rapidamente para a região da Rua Guaianases, no centro de São Paulo.

O intervalo médio entre o furto ou roubo e a entrega do aparelho seria de 20 a 25 minutos. O celular era então encaminhado a um dos chamados “Icloudeiros”, responsáveis pela tentativa de desbloqueio.

O nome é usado na investigação para identificar técnicos que tentavam remover o vínculo do aparelho com a conta do proprietário e burlar mecanismos de proteção. A intenção não era apenas liberar o telefone para revenda: os criminosos também buscavam acessar dados pessoais e contas bancárias das vítimas.

Em um dos relatos, a tentativa de desbloqueio levava cerca de 20 minutos adicionais. O colaborador também afirmou que uma única vítima teria gerado aproximadamente R$ 28 mil após o acesso indevido a contas bancárias.

3. O celular passa por alterações

Depois da exploração dos dados, entrava em cena um núcleo especializado na alteração técnica dos aparelhos.

Segundo o MP, estabelecimentos concentrados principalmente na região do Shopping Mundo Oriental, Rua Santa Ifigênia e Avenida Ipiranga utilizavam softwares e equipamentos para remover bloqueios e desvincular os aparelhos de seus antigos proprietários.

A investigação também aponta para a alteração do IMEI, inclusive por meio da substituição física da placa lógica do aparelho. Com a troca de componentes, celulares roubados poderiam perder características que permitissem sua identificação e rastreamento.

Os equipamentos usados nesse processo deixariam registros digitais. Segundo o MP, os chamados logs poderiam indicar data, hora, modelo, número de série e IMEI dos aparelhos submetidos à intervenção.

4. O celular volta ao mercado

Na última etapa estavam empresas e pessoas responsáveis pela comercialização dos aparelhos e das peças.

Os celulares podiam ser remontados e revendidos como usados ou desmontados. Nesse caso, componentes como telas, câmeras e placas eram comercializados separadamente.

A investigação encontrou estabelecimentos que vendiam as chamadas “peças retiradas”, expressão usada para componentes originais retirados de outros aparelhos cuja procedência não podia ser identificada.

Para o MP, o último elo também era responsável por dar aos produtos um aparente lastro documental. A investigação aponta a utilização de notas fiscais ideologicamente falsas para permitir que aparelhos e peças entrassem novamente no mercado formal.

Um dos casos chamou a atenção pela dimensão. Uma empresa analisada pelos investigadores teria registrado a entrada formal de apenas 101 aparelhos, no valor de R$ 48 mil, mas contabilizado a saída de 1.092 celulares, avaliados em mais de R$ 5,2 milhões.

A diferença era de 991 aparelhos sem entrada fiscal correspondente. Entre as unidades vendidas, 1.002 eram iPhones. A análise de IMEI também não encontrou correspondência entre os aparelhos vendidos e os registros de entrada.

Uma cadeia que começa na rua e termina no comércio

Para o Ministério Público, a divisão em quatro núcleos mostra como o roubo ou furto é apenas o primeiro elo de uma estrutura maior.

O celular passa pelo criminoso que faz a subtração, pelo receptador que recebe o aparelho, pelo técnico que remove bloqueios e pode alterar componentes e identificadores e, finalmente, por quem coloca o produto novamente à venda.

A investigação afirma que essa divisão permite que o aparelho roubado ou furtado seja rapidamente transformado em uma mercadoria com aparência de legalidade, alimentando novamente o mercado que dá valor econômico aos celulares subtraídos.