Álvaro Machado Dias
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Álvaro Machado Dias

Professor livre-docente da UNIFESP e colunista de IA do Prompt CNN.

A inteligência foi para o espaço

Data centers fora do planeta perdem endereço físico e, consequentemente, deixam de obedecer a legislações locais

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Depois de anos falando do assunto sem que nada acontecesse, o Google finalmente colocou quatro chips de inteligência artificial em órbita, com o objetivo de mostrar que um data center inteiro pode ser construído no espaço (com a ajuda dos foguetes de Elon Musk, sejamos claros).

Quatro chips que pareceriam uma brincadeira diante do que se empilha em qualquer galpão de servidores se a mesma SpaceX não tivesse pedido ao governo americano licença para operar até um milhão de satélites com essa finalidade. O assunto exala big business.

Agora, é preciso entender a sua natureza real. A justificativa oficial é a energia, porque lá em cima o Sol não se põe nem se esconde atrás de nuvem alguma e ninguém precisa negociar com a companhia elétrica, com a prefeitura ou com a vizinhança que passa a noite ouvindo as turbinas roncarem, mas a física cobra em outras moedas o que economiza nessa.

No vácuo não existe ar para dissipar o calor, de modo que tudo o que os chips esquentam precisa escapar devagar por radiadores enormes. A radiação vai corrompendo a memória dos processadores, não há técnico que suba para trocar uma placa queimada a quinhentos quilômetros de altura e a resposta de um chatbot que descesse do céu até a sua tela chegaria depois daquela que sai de um galpão em Osasco.

Isso sem falar no problema que radiador nenhum resolve: o de que um chip lançado hoje passa cinco anos em órbita sem poder ser substituído, num setor em que a geração seguinte costuma chegar antes de a anterior se pagar.

Musk trata os céticos com o desprezo de costume e diz que gente que se acha muito inteligente decreta a impossibilidade do computador orbital sem saber "coisas tão básicas quanto a rejeição de calor do radiador por metro quadrado", no que provavelmente tem razão.

Tanto que o Google já testou o resfriamento em câmara de vácuo e uma startup americana treinou um modelo pequeno em órbita no fim do ano passado, embora ter razão nesse detalhe sirva, aqui, sobretudo para desviar a conversa do que importa.

Desde que existe, um data center é antes de tudo um lugar, no sentido mais prosaico da palavra, um terreno servido por uma linha de transmissão e por um cabo de fibra, dentro de uma jurisdição que cobra imposto e de um município que concede alvará, condição em torno da qual se organizou uma disputa mundial em que os países se oferecem como bons endereços para as máquinas dos outros.

O Brasil acabou de entrar nela zerando impostos por cinco anos para as empresas que instalarem data centers aqui, com o argumento de que temos terra sobrando e energia limpa, numa aposta que faz sentido para a década que vem, porque a computação que sobe primeiro para o espaço é a que não tem pressa.

O treinamento dos modelos e as tarefas em lote, enquanto a resposta que você espera na tela continua vindo do chão.

O retorno dessa aposta, por outro lado, é menos claro do que parece, já que um galpão de servidores no interior de São Paulo pode pertencer a uma empresa estrangeira e atender clientesestrangeiros, com o brasileiro entrando ali na condição de cliente e o contribuinte ajudando a pagar a obra, o que configura uma forma curiosa de contabilizar soberania.

Mais importante do que isso é entender o que a aposta pressupõe, a saber, que a inteligência vá continuar precisando de um endereço.

É exatamente a hipótese contrária que quatro chips em órbita começam a testar, porque no momento em que a computação vira uma espécie de frota voadora em vez de imóvel, a isenção fiscal perde o destinatário, uma vez que ninguém oferece incentivo a um satélite. Do mesmo modo que as leis escritas para manter os dados dentro das fronteiras nacionais passam a valer contra um objeto que sobrevoa o país a cada noventa minutos sem pertencer a lugar nenhum.

O bem escasso se afasta do metro quadrado ao lado da hidrelétrica para virar a vaga no foguete e a faixa de órbita, coisas que pertencem a pouquíssima gente. A começar pela SpaceX, que é dona do foguete que leva os chips do Google, é a autora do pedido do milhão de satélites e hoje abriga dentro de si a própria inteligência artificial de Musk, de maneira que, se o plano der certo, o dono do foguete vira o senhorio da inteligência do mundo, posição que nenhuma companhia de energia ou governo jamais ocupou.

É esse o negócio que a conversa sobre energia esconde: pela primeira vez, a infraestrutura mais valiosa do século pode existir sem um endereço onde algum governo consiga cobrar imposto, impor regra ou bater à porta, com o aluguel dessa ausência de lugar indo para a empresa que controla o único caminho até lá.

O plano, aliás, nem precisa funcionar para começar a render, porque a ameaça já faz boa parte do serviço. Basta que a opção pareça crível para que a empresa dona dela se sente à mesa com prefeitos, governadores e ministros em condições muito diferentes das atuais, já que os governos que hoje oferecem isenção e terreno barato passariam a negociar contra a possibilidade de o investimento simplesmente ir para cima.

Fábricas capazes de mudar de país usam esse trunfo há décadas para baixar imposto e salário, só que até agora ninguém pôde ameaçar sair do planeta. Boa parte do valor de um data center orbital, suspeito, está justamente nessa ameaça, que já mexe no preço da energia e nas condições oferecidas em terra muito antes de qualquer satélite fazer uma conta que feche.

Como ameaça agora ou como fato consumado daqui a uma década, a perda para os governos é a mesma, já que o endereço era a única carta capaz de obrigar essas empresas a sentar e negociar, algo que o Brasil, com seus cinco anos de impostos zerados recém-aprovados, vai descobrir antes da maioria.

Passamos vinte anos chamando de nuvem o que não passava de um galpão climatizado na Virgínia. Neste momento, a metáfora vai se tornando literal, acima das nuvens de verdade, justamente no instante em que a coisa escapa do alcance de qualquer país, tribunal ou fiscal.

A energia do Sol é a parte dessa história que se pode contar em público. O resto, que não consta de pedido de licença nenhum, é uma inteligência que ninguém mais alcança, alugada ao mundo inteiro por uma empresa só, a dona da chave do único elevador que sobe até lá.

 

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