Análise: confronto com os EUA na OMC é gesto político do Brasil
Organização Mundial do Comércio está praticamente paralisada, mas governo Lula usa ação para contestar tarifaço e reforçar defesa do multilateralismo

A reclamação formal que o governo brasileiro vai apresentar na OMC (Organização Mundial do Comércio) contra o tarifaço do presidente Donald Trump é vista como um movimento político e diplomático.
O Palácio do Planalto sabe que a OMC está praticamente paralisada por ações deliberadas do próprio governo americano, que vem vetando a nomeação de juízes para os tribunais de apelação da entidade desde o fim do mandato do presidente Barack Obama.
Com os vetos sucessivos, os tribunais internos perderam o número mínimo de juízes para julgar os casos e impor suas decisões aos governos. A única possibilidade de ação concreta dentro da OMC seria uma mediação eficaz que levasse os dois lados a um acordo consensual — o que não deve acontecer no caso das tarifas impostas por Trump, que não demonstra interesse em negociações que não sejam bilaterais.
Mesmo assim, o Brasil decidiu acionar a OMC para sinalizar uma reação também no plano internacional — além de manter as tentativas de negociações diretas com os Estados Unidos.
O governo brasileiro alegará que a medida unilateral dos EUA representa um risco ao comércio mundial e viola as regras internacionais por motivação política, relacionada ao processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro por suposta tentativa de golpe de Estado.
O Brasil já fez uma manifestação formal na organização no dia 23 de julho, por meio de um discurso do secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Itamaraty, o embaixador Philip Gough, contra o tarifaço.
O discurso contou com o apoio explícito de mais de 40 países, incluindo União Europeia e China — todos também impactados pela taxação de Trump.
Apesar desse apoio, a realidade é que a ação na OMC não levará a sanções nem à reversão das tarifas. O Brasil, contudo, resolveu levar adiante a reclamação para demonstrar ao mundo sua insatisfação com a medida americana e reforçar sua posição histórica em defesa do multilateralismo e das instituições internacionais — um gesto que também funciona como crítica ao esvaziamento da OMC promovido por Washington.
O governo entende que a iniciativa tem impacto prático limitado, mas que é essencial preservar a coerência do discurso brasileiro em defesa das regras do comércio internacional e dos princípios do multilateralismo, em um momento em que o principal protagonista global age de forma cada vez mais unilateral.



