Américo Martins
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Américo Martins

Especialista em jornalismo internacional e fascinado pelo mundo desde sempre, foi diretor da BBC de Londres e VP de Conteúdo da CNN; já visitou mais de 70 países

Ação dos EUA abre nova fase intervencionista na América Latina

Ataques contra a Venezuela e captura de Maduro mostram como Trump pretende lidar com a região

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Os ataques contra a Venezuela e a captura do ditador Nicolás Maduro inauguram uma nova fase intervencionista dos Estados Unidos na América Latina.

Trata-se de uma inflexão deliberada na maneira como o presidente Donald Trump pretende lidar com a região, agora vista como uma área que precisa ser submetida aos interesses americanos.

Na entrevista coletiva concedida no sábado (03), o próprio Trump afirmou que “o domínio dos EUA no Hemisfério Ocidental nunca mais será contestado”.

E não se trata apenas de retórica. É um recado aos governos sul-americanos e também a potências externas - como China e Rússia - de que os norte-americanos vão agir, inclusive com força militar, quando sentirem que seus interesses estejam em risco.

Segurança nacional

Os elementos teóricos dessa posição foram explicitados no final de 2025, quando a administração Trump divulgou uma nova Política de Segurança Nacional. O texto afirma que os objetivos dos EUA para o hemisfério podem ser resumidos em duas palavras: “alinhar e expandir”, sinalizando a intenção de ampliar a presença política, militar e econômica no continente.

O texto faz referências diretas à doutrina Monroe, formulada no início do século XIX pelo então presidente James Monroe, que defendia que a América Latina deveria permanecer sob influência direta de Washington.

Essa visão serviu de base para intervenções que marcaram a história da região: do apoio ao golpe militar de 1964 ao envolvimento na derrubada do socialista Salvador Allende no Chile, em 1973, além de operações clandestinas da CIA na América Central e invasões ilegais no Caribe e no Panamá.

Nesse contexto, a última ação na Venezuela faz a região voltar a se preocupar com possíveis instabilidades geradas pelas ações da Casa Branca.

Não há dúvidas de que o regime de Maduro era ilegítimo e impopular.

O ditador fraudou as eleições de 2024 em seu favor, reprimiu com mão de ferro a oposição e adotou muitas políticas que prejudicaram a sua própria economia.

Mas ao atacar diretamente a Venezuela, sem nenhuma autorização do Conselho de Segurança da ONU ou até mesmo do Congresso americano, Trump dá diversos sinais de que pretende abandonar os limites impostos pelo sistema multilateral e pelo direito internacional.

A intenção é substituir o multilateralismo por uma lógica de poder baseada na força e na dissuasão direta. E a América Latina, na zona de influência imediata de Washington, vai ser um foco constante dessas ações.

Trump sinalizou isso também na entrevista que concedeu após os ataques contra a Venezuela, chegando a ameaçar o governo de esquerda da Colômbia e a ditadura cubana.

Isso sugere que a operação contra Maduro não apenas é um evento isolado, mas o início da aplicação concreta de uma estratégia mais ampla para o continente.

A ofensiva deste final de semana, portanto, vai muito além de Maduro e das acusações de narcotráfico contra ele. As ações autorizadas por Trump redefinem a relação entre Estados Unidos e América Latina, e colocam a região diante de uma nova e incômoda realidade estratégica.