Américo Martins
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Américo Martins

Especialista em jornalismo internacional e fascinado pelo mundo desde sempre, foi diretor da BBC de Londres e VP de Conteúdo da CNN; já visitou mais de 70 países

Análise: Ameaças de Musk reforçam necessidade de regulação mundial das redes

Dono do X diz que vai desrespeitar decisões judiciais do STF e liberar contas que foram bloqueadas por abusos na sua plataforma social

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As ameaças do bilionário Elon Musk de liberar contas bloqueadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), na plataforma X, o antigo Twitter, reforçam o debate sobre a urgente necessidade da adoção de uma regulação mundial para as redes sociais.

Com suas declarações, o bilionário mostra mais uma vez que se opõe a regras judiciais.

 

Desdenhando das leis

E esta não é a primeira vez que ele desdenha das leis de outros países.

No mês passado, por exemplo, o bilionário sul-africano se posicionou contra mais um avanço civilizatório no ambiente digital: a aprovação de uma nova legislação na Escócia tornando crime incitar o ódio contra pessoas por causa de sua idade, deficiência, religião, orientação sexual ou identidade de gênero.

Para Musk, atacar pessoas por conta de suas características é apenas “liberdade de expressão”, e não um crime.

O bilionário também é crítico da Lei de Serviços Digitais da União Europeia, a mais moderna legislação sobre a ação das big techs em vigor no mundo.

A lei obriga as redes a moderar os conteúdos, evitando abusos; a controlar melhor a publicidade digital, especialmente quando dirigida a crianças; e tornar os seus algoritmos muito mais transparentes.

Neste ponto, talvez as críticas de Musk não sejam apenas um acaso: em setembro de 2023, a União Europeia divulgou um relatório comprovando que o X tem “a maior proporção de postagens de desinformação” de todas as grandes plataformas de mídia social.

Regras globais

O comportamento de Musk certamente seria outro se os principais países do mundo, incluindo obviamente os Estados Unidos, adotassem simultaneamente regras comuns para combater as fake news e os discursos de ódio no ambiente digital.

Existem iniciativas propostas pela ONU e sua agência para Educação, Ciência e Cultura, a Unesco, neste sentido.

Esses órgãos defendem a adoção de medidas globais que garantam um ambiente mais saudável nas redes, eliminando abusos.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, já fez vários discursos defendendo a necessidade de se enfrentar a disseminação da desinformação e a negação de fatos cientificamente estabelecidos, que representam “um risco existencial para a humanidade”.

A Unesco realizou, inclusive, um fórum justamente neste sentido no primeiro semestre de 2023 que contou com a participação do presidente do STF, ministro Luís Roberto Barroso, e com um depoimento gravado em vídeo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A agência da ONU reconhece, claro, que a internet é uma importante ferramenta para a comunicação e a disseminação do conhecimento.

No entanto, diz a Unesco, “as plataformas de mídia social também estão espalhando desinformação, discurso de ódio e teorias da conspiração que danificam o tecido de nossas sociedades, semeando desconfiança, exacerbando a polarização política, ajudando a semear o extremismo e minar as condições para a coexistência pacífica – em particular eleições livres e justas”.

Segundo a entidade, os modelos de negócios de mídia social “favorecem o envolvimento e a lucratividade acima da segurança e dos direitos humanos”.

Ironicamente, Musk se referiu justamente ao lucro em uma das postagens nas quais ameaça levantar o bloqueio a contas que cometeram abusos no Brasil.

“Estamos retirando todas as restrições. Este juiz aplicou multas pesadas, ameaçou prender nossos funcionários e cortar o acesso ao X no Brasil. Como resultado, provavelmente perderemos todas as receitas no Brasil e teremos que fechar nosso escritório lá. Mas os princípios são mais importantes do que o lucro”, afirmou Musk, tentando distorcer a realidade ao misturar lucros com seus “princípios”.

Dado o histórico, talvez seja um ganho para a democracia brasileira o fechamento de tal rede social no país.