Américo Martins
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Américo Martins

Especialista em jornalismo internacional e fascinado pelo mundo desde sempre, foi diretor da BBC de Londres e VP de Conteúdo da CNN; já visitou mais de 70 países

Análise: Ataques entre Irã e EUA não significam volta de uma guerra total

Agressões militares foram as piores desde a assinatura do acordo de paz provisório, mas nenhum dos dois países tem muito interesse em um novo conflito aberto

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Os fortes ataques militares e retóricos entre Estados Unidos e Irã são um teste crucial para o frágil acordo provisório entre os dois países, mas isso não significa necessariamente a volta de uma guerra total e aberta no Oriente Médio.

As agressões militares foram as piores desde que Teerã e Washington assinaram o acordo de paz provisório. Três petroleiros foram atingidos no Estreito de Ormuz, mais de 80 alvos iranianos foram destruídos pelos norte-americanos e as retaliações do Irã também atingiram territórios do Bahrein e do Kuwait.

Em meio a tudo isso, o governo dos Estados Unidos anunciou que voltou a aplicar sanções contra a exportação de petróleo iraniano, numa tentativa de atingir diretamente a economia do país inimigo.

Quase imediatamente, muitas embarcações mudaram de rota para evitar o Estreito de Ormuz, e o preço do petróleo disparou.

Para completar, o presidente Donald Trump anunciou que, para ele, o acordo de paz “acabou”. E criticou duramente os líderes iranianos: “eles são uma escória. São pessoas doentes. São pessoas cruéis e violentas".

Já o principal negociador do Irã, Mohammad Ghalibaf, disse que os norte-americanos haviam cometido "violações graves" do acordo temporário ao "reimpor sanções ao petróleo". E o Ministério das Relações Exteriores iraniano afirmou, em nota, que a medida tornava o acordo "ineficaz".

Tudo isso remete aos piores dias da guerra na região, quando os ataques também eram muito intensos, vários países estavam envolvidos e o conflito se estendia a uma retórica incendiária dos dois lados.

Mas, apesar de tudo isso, há sinais de que uma guerra total não interessa a nenhum dos dois países, que também deixaram abertas portas para eventuais recuos.

Para Trump e seu governo, as consequências de um retorno a uma guerra aberta seriam extremamente negativas.

O conflito já ajudou a derrubar a popularidade do líder norte-americano e teve impacto relevante na inflação dos Estados Unidos. Tudo isso às vésperas das eleições de meio de mandato para o Congresso.

O cenário ideal para Trump é controlar, de alguma forma, as ações iranianas, impedir o país de desenvolver armas nucleares e, acima de tudo, manter o Estreito de Ormuz aberto.

Para o Irã, evitar o retorno da guerra também é essencial, diante da destruição já causada no país e do enorme impacto sobre sua economia e sua população. Acima de tudo, Teerã quer retomar suas exportações de petróleo e continuar demonstrando que o regime mantém o controle interno.

Além disso, os dois lados deram sinais de que algum tipo de compromisso ainda pode ser alcançado, apesar do aumento da retórica agressiva.

Trump afirmou que seus negociadores poderiam continuar conversando com o lado iraniano. E o negociador principal do Irã teve o cuidado de afirmar que apenas uma parte do acordo está sob ameaça.

O problema, claro, é que o acirramento da situação em todas as frentes pode levar qualquer um dos lados a cometer um erro, o que poderia voltar a desencadear um confronto muito mais amplo e perigoso.

A fragilidade das relações entre Irã e Estados Unidos exige cautela. E espera-se que os dois governos levem isso em consideração.