Análise: Com filho de Khamenei, Guarda Revolucionária segue mandando no Irã
Confirmado como novo líder supremo do país, Mojtaba Khamenei construiu fortes conexões ao longo dos anos com a principal força de sustentação do regime e tem uma visão tão radical quanto a do seu pai sobre o futuro do país
A escolha de Mojtaba Khamenei para substituir o pai, o aiatolá Ali Khamenei, como líder supremo do Irã mostra que a Guarda Revolucionária continua dando as cartas no país.
Isso, por sua vez, também revela que as alas mais radicais dentro do regime dos aiatolás se mantêm ativas e pretendem continuar resistindo aos ataques militares dos Estados Unidos e de Israel.
A Guarda Revolucionária é a principal força de sustentação da ditadura iraniana, usando frequentemente a repressão contra o seu próprio povo para manter a sua ideologia radical no poder.
Vários de seus líderes foram mortos durante os ataques de americanos e israelenses, mas a corporação tem planos detalhados de sucessão para manter a sua posição no país.
Os novos líderes, assim como os anteriores, não mostram nenhuma inclinação para negociar, no curto prazo, algum tipo de cessar-fogo com os americanos ou abandonar, no longo prazo, os seus planos de construção de armas nucleares e aumento de seu programa de mísseis.
Ao longo das últimas décadas, a Guarda se transformou em um verdadeiro conglomerado político, econômico e de inteligência, controlando vários setores da economia, inclusive o petróleo.
Além de controlar o aparato de segurança interna, a corporação também é responsável pelas principais operações externas do regime. Isso inclui o apoio, financiamento e treinamento de milícias e grupos extremistas aliados em diferentes partes do Oriente Médio, como o Hamas na Faixa de Gaza, o Hezbollah no Líbano e os Houthis no Iêmen.
Um clérigo xiita de posto médio, Mojtaba Khamenei teve como principal trunfo para sua escolha justamente o fato de ter construído ao longo dos anos uma forte relação com a Guarda Revolucionária.
Ao contrário do pai, que havia sido presidente do Irã antes de ser escolhido para substituir o líder da revolução islâmica aiatolá Ruhollah Khomeini em 1989, Mojtaba Khamenei nunca exerceu um cargo executivo no país.
O próprio fato de ser filho do líder supremo anterior era visto como um problema por parte do establishment do regime porque uma sucessão dinástica é mal vista num país que derrubou a monarquia corrupta do xá Reza Pahlevi e se vê como essencialmente diferente de outros países do Golfo Pérsico, dominados há décadas por ditaduras familiares.
Nada disso foi visto como um problema pela Assembleia dos Peritos, o órgão de clérigos oficiais que tem a responsabilidade de escolher os líderes supremos do regime.
No final, a própria assembleia preferiu a continuidade e cedeu às pressões da Guarda Revolucionária.
Diferentemente de muitos clérigos tradicionais do establishment religioso, de onde se esperava que os líderes supremos sempre saíssem, Mojtaba cultivou relações diretas com comandantes militares.
Ele participou de discussões estratégicas e foi apontado por analistas e ex-integrantes do regime como um importante elo entre o gabinete do seu pai como líder supremo e os setores de segurança do Estado.
A sua escolha indica acima de tudo que os comandantes da Guarda Revolucionária preferiram apostar em alguém que já conhecem, em quem confiam e que compartilha da mesma visão ideológica de confronto com o Ocidente.
Essa decisão também representa um desafio direto às declarações recentes do presidente americano Donald Trump, que havia afirmado publicamente que não aceitaria Mojtaba Khamenei como sucessor do pai.
Trump chegou a dizer que teria que participar da escolha de um sucessor de Ali Khamenei e que se um nome fosse escolhido sem sua aprovação, o novo líder também estaria condenado de saída à morte.
Israel também vê o novo líder supremo como uma figura profundamente hostil. Assim como seu pai, Mojtaba Khamenei tem defendido ao longo dos anos uma postura de enfrentamento permanente ao Estado de Israel.
Isso já coloca a sua cabeça a prêmio desde o primeiro dia no posto.
Apesar disso, a escolha feita em Teerã sinaliza claramente que o regime pretende reafirmar a sua autonomia e resistir a qualquer tentativa externa de influenciar a sua estrutura política.
E que a linha dura da ditadura não vai aceitar facilmente uma derrota militar ou política.



