Análise: crises com Argentina e EUA miram eleições no Brasil
Norte-americanos suspenderam visto da embaixadora brasileira em Washington e Brasília decidiu rebaixar relações com Buenos Aires depois de ofensas de Javier Milei a Lula

As crises diplomáticas com a Argentina e com os Estados Unidos têm ao menos um ponto em comum: levantam fortes questionamentos sobre interferências no processo eleitoral brasileiro.
No caso dos Estados Unidos, é preciso lembrar que os atritos entre Washington e Brasília tiveram início em julho do ano passado, com o anúncio do tarifaço original de 50% sobre a maior parte das exportações brasileiras.
Na ocasião, o presidente Donald Trump enviou uma carta aberta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciando o tarifaço e usando como justificativa críticas ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e ataques aos sistemas eleitoral e judicial do Brasil.
A partir dali, os atritos só aumentaram e desembocaram agora no cancelamento do visto da embaixadora Maria Luiza Viotti, gerando a pior crise diplomática em mais de 200 anos de relações entre os dois países.
A leitura em Brasília é de que há um componente político muito forte em todas essas ações.
A proximidade das eleições brasileiras reforça a percepção de que medidas como o tarifaço, declarações de autoridades americanas e agora a decisão envolvendo a embaixadora fazem parte de uma estratégia de pressão.
Essa interpretação ganha força quando se observa que, no auge da crise, o próprio governo americano divulgou documentos estratégicos de defesa e segurança nacional nos quais afirma, de forma explícita, que pretende manter a América Latina sob sua esfera de influência.
Na prática, isso é visto como um indicativo de que Washington busca preservar governos alinhados aos seus interesses na região.
O Brasil, pela sua dimensão e peso político, se torna um alvo prioritário desse tipo de pressão. E a forma de fazer isso é tentar interferir no processo eleitoral, tentando desgastar de várias formas o governo do presidente Lula.
No caso dos problemas com a Argentina, o fator eleitoral é ainda mais claro.
A atual crise foi iniciada quando o presidente argentino, Javier Milei, participou da convenção de oficialização da candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro e ofendeu o presidente Lula e o ministro do STF Alexandre de Moraes.
A atitude de Milei foi inédita e teve clara intenção eleitoral.
Afinal, trata-se de um chefe de Estado de uma nação amiga participando de um evento eleitoral em outro país e se posicionando claramente a favor de um candidato.
A consequência foi imediata. O Brasil retirou seu embaixador de Buenos Aires e agora caminha para um rebaixamento das relações diplomáticas com o governo argentino, como apurou a correspondente Luciana Taddeo, em Buenos Aires.
Aqui, a tentativa de influência é ainda mais explícita.
Não se trata de pressão indireta ou de medidas econômicas, até porque, ao contrário dos Estados Unidos, a Argentina depende muito do comércio com o Brasil.
O presidente Lula, por seu lado, busca se beneficiar eleitoralmente da situação ao jogar uma carta nacionalista e tentar se colocar como um defensor da soberania do país, em alguns casos até atuando como um agente provocador ao fazer discursos fortes contra Trump.
O que une os dois episódios é o momento em que ocorrem e a natureza das ações.
São movimentos que surgem às vésperas de uma eleição presidencial no Brasil e que, de diferentes formas, buscam influenciar o ambiente político interno.
Isso não elimina a responsabilidade do governo brasileiro na condução das relações diplomáticas e na tentativa de buscar flexibilidade no diálogo com Buenos Aires e Washington.
Mas indica que, neste momento, tanto os Estados Unidos como a Argentina decidiram elevar o tom e assumir o risco de tensionar relações históricas.
Segundo algumas fontes em Brasília, as duas crises, inclusive, seriam coordenadas e não estariam acontecendo simultaneamente por acaso.



