Análise: Midterms mostram que o eleitor norte-americano cansou de Trump
Custo de vida e guerra no Irã explicam boa parte da derrota republicana, mas as urnas também mostraram uma rejeição à forma de governar do presidente

O nome do presidente Donald Trump não estava nas cédulas de votação, mas ele foi o maior perdedor das eleições para o Congresso norte-americano.
Os democratas conquistaram as duas casas legislativas e impuseram uma derrota histórica ao Partido Republicano.
Trump terá agora que administrar o país com o Congresso nas mãos da oposição.
A insatisfação dos eleitores com o custo de vida, a situação da economia e a guerra contra o Irã explicam em grande medida esse resultado.
Mas há um outro fator importante, no entanto, que pesou nessas eleições, vistas como um referendo sobre Trump: a rejeição claríssima ao modo agressivo e controverso como o presidente governa.
Uma pesquisa feita no dia da eleição para a rede conservadora Fox News mostrou que 32% dos eleitores apontavam o risco de enfraquecimento da democracia como o segundo problema mais importante do país, atrás apenas da economia.
Cerca de metade dos americanos também disse ver a eleição como uma oportunidade de dar um recado a Trump.
O resultado mostra que uma parcela expressiva do eleitorado está cansada de um governo marcado por ataques permanentes a quem discorda dele, confrontos e ofensas pessoais, e nenhuma disposição para aceitar críticas ou reconhecer erros.
Em agosto de 2025, depois que dados oficiais mostraram uma desaceleração na criação de empregos, por exemplo, Trump decidiu ignorar os fatos e preferiu demitir a chefe do órgão responsável pelas estatísticas de trabalho.
Sem apresentar provas, acusou-a de manipular os números que não lhe agradavam.
Os ataques pessoais também se tornaram uma marca de sua presidência.
Trump insultou adversários como a deputada progressista Alexandria Ocasio-Cortez e o líder democrata na Câmara, Hakeem Jeffries.
Chamou políticos de "baixo QI", questionou a inteligência de outros e fez referências depreciativas à aparência e até à religião de adversários.
Nem mesmo a Suprema Corte, de maioria conservadora e alinhada a Trump, escapou.
Depois que seis ministros derrubaram sua política de tarifas, Trump atacou publicamente os magistrados, inclusive dois que ele próprio havia indicado.
Uma análise do jornal The Washington Post, publicada em maio, identificou expressões vulgares ou desrespeitosas em cerca de 93% dos discursos de Trump no primeiro ano e meio do atual mandato.
Não se espera e não se pode justificar um comportamento assim de uma pessoa que ocupa um dos cargos mais importantes da política mundial.
E as pesquisas eleitorais mostram o desgaste dessa forma de embate violento e constante.
Cerca de seis em cada dez eleitores disseram que Trump foi um fator importante na escolha do seu candidato à Câmara. E aproximadamente 70% defenderam que o Congresso exerça mais controle sobre o presidente.
Os preços e a guerra deram o empurrão para o eleitor votar nos democratas, mas o estilo de Trump tirou dos republicanos qualquer margem para resistir à enorme onda azul que tomou conta do país.
Trump chegou ao poder prometendo romper com as convenções políticas e enfrentar o que chamava de “sistema de Washington”. Essa postura lhe garantiu uma base fiel e o retorno à Casa Branca em 2024.
Mas o custo da vitória dele foi um país em confronto permanente, em que adversários viraram inimigos e instituições são atacadas quando contrariam o presidente.
Na democracia, rivais políticos precisam ser tratados com respeito, e não como inimigos.
Trump e seus seguidores pelo mundo fazem o contrário.
O presidente norte-americano ainda tem dois anos de mandato, mas vai governar como o chamado “pato manco”, com um Congresso nas mãos da oposição e sem possibilidade de reeleição.
Graças à forma como conduziu seu governo neste mandato, o que levou a um enorme cansaço do eleitorado.



