Américo Martins
Blog
Américo Martins

Especialista em jornalismo internacional e fascinado pelo mundo desde sempre, foi diretor da BBC de Londres e VP de Conteúdo da CNN; já visitou mais de 70 países

Ataque dos EUA encurrala os aiatolás e põe regime do Irã em xeque

Governo iraniano enfrenta dilema após o bombardeio americano, mas tem três opções de respostas — todas arriscadas

Compartilhar matéria

O bombardeio dos Estados Unidos em instalações nucleares iranianas encurralou o regime dos aiatolás e deixou o Irã com pouca margem de manobra para responder.

Durante décadas, os líderes do Irã prometeram reagir com força a qualquer agressão vinda dos EUA — país que chamam de “o grande satã” e que consideram responsável por armar, financiar e proteger Israel, seu inimigo histórico na região.

Mas a realidade agora se mostra muito dura para a teocracia iraniana.

O regime enfrenta um dilema. Precisa reagir para tentar manter alguma credibilidade diante de adversários e da população. No entanto, um erro de cálculo pode acelerar seu declínio.

Restam três caminhos — todos perigosos.

Saída Diplomática

A primeira opção seria aceitar o prejuízo causado pelos intensos bombardeios israelenses e pelos ataques americanos e se render à diplomacia.

O Irã pode seguir um roteiro que já usou no passado: protestar em fóruns internacionais, denunciar a suposta ilegalidade do ataque e solicitar apoio de aliados estratégicos como Rússia e China — que não devem fazer muitos mais do que criticar os EUA na ONU.

Essa estratégia permite evitar uma resposta militar e ganhar tempo. Mas isso deixaria os iranianos numa posição muito enfraquecida.

A saída diplomática vai ser vista tanto por seus adversários externos quanto por parte da opinião pública interna como o que realmente é: um claro recuo.

Pode ser o caminho mais seguro para dar sobrevida ao regime, mas sem dúvida seria o mais humilhante para os aiatolás que tantas ameaças fizeram ao mundo nas últimas décadas.

Saída militar imediata

A segunda via, seria uma retaliação direta imediata contra os Estados Unidos, algo que está sendo defendido pela ala mais radical dos políticos do país.

Eles argumentam que o Irã ainda tem um arsenal razoável e conta com grupos aliados em diferentes países, como o Hezbollah no Líbano, os Houthis no Iêmen e milícias xiitas no Iraque e na Síria.

Embora enfraquecidos pelas guerras com Israel, esses grupos ainda seriam capazes de atingir bases militares, navios, empresas ou embaixadas americanas na região.

Os Houthis, por exemplo, fazem exatamente essa ameaça.

Mas esse tipo de resposta é o caminho mais curto para uma escalada perigosa para o regime.

O presidente Donald Trump já afirmou publicamente que qualquer ataque contra interesses dos EUA resultará em represálias “devastadoras”.

Se optar por esse caminho, o Irã arrisca sofrer novos bombardeios, desta vez contra centros estratégicos e urbanos, algo que pode comprometer seriamente a estrutura do regime.

Seus líderes políticos também poderiam ser assassinados, o que aumentaria as chances de uma mudança no regime.

O próprio Trump já chegou a ameaçar assassinar o líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei.

Ataques iranianos imediatos dariam a desculpa ideal para esse tipo de ação.

Saída silenciosa

A terceira opção, a menos provável de todas, seria adotar uma postura de espera silenciosa.

O Irã pode decidir não reagir agora (além da retórica diplomática na ONU), tentar evitar negociações imediatas e apostar numa retaliação futura, com mais preparo e discrição.

Em tese, essa estratégia permitiria ao regime ganhar tempo, reorganizar alianças, reconstruir capacidades militares e escolher com mais precisão o momento certo para responder.

No entanto, essa escolha depende de muitos fatores que estão em falta em Teerã, incluindo estabilidade interna e controle da narrativa.

O país enfrenta inflação alta, tensões sociais crescentes e um ambiente político cada vez mais instável.

Adiar a resposta vai ser lido como sinal de fraqueza, o que também desgasta a imagem dos aiatolás perante sua base.

Além disso, Israel e Estados Unidos vão continuar pressionando os iranianos, inclusive militarmente — o que vai negar a Teerã o tempo que seria necessário para essa estratégia.

Seja qual for a escolha, os riscos são altos.

Reagir com força pode levar a um conflito aberto, acelerando o fim do regime.

Recuar ou hesitar, por outro lado, pode corroer ainda mais sua base de apoio.

Os aiatolás sempre sobreviveram calculando riscos. Desta vez, porém, o equilíbrio é mais frágil. E o preço de um erro seria, quase inevitavelmente, a queda do regime.