Américo Martins
Blog
Américo Martins

Especialista em jornalismo internacional e fascinado pelo mundo desde sempre, foi diretor da BBC de Londres e VP de Conteúdo da CNN; já visitou mais de 70 países

Brasileira no Irã relata preocupação com bombardeios de Israel

Cidadãos iranianos têm colaborado com autoridades e alertado sobre movimentações suspeitas, segundo relato

Prédio atacado por Israel em Teerã  • 13/6/2025 Majid Asgaripour/WANA (West Asia News Agency) via REUTERS
Compartilhar matéria

Uma estudante brasileira que vive há cerca de 10 anos na cidade sagrada de Qom, no Irã, relata que a população do país está preocupada com os ataques recentes, mas afirma que o sentimento predominante é de união contra Israel.

“Fátima”, nome fictício usado por motivos de segurança, tem 32 anos, possui dupla cidadania e estuda em uma instituição iraniana.

Segundo ela, apesar do medo natural em situações de conflito, os iranianos estão “enfrentando bravamente” os acontecimentos.

Fátima é muçulmana e se identifica como seguidora do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei.

Ela reconhece que há divergências internas, mas afirma que mesmo parte dos opositores do regime estão deixando temporariamente as diferenças de lado para apoiar o país diante do confronto com Israel.

“Apesar de toda guerra ser assustadora, o povo iraniano vem enfrentando isso bravamente. Por mais que algumas pessoas não concordem 100% com o governo, estas mesmas pessoas clamam que agora é hora de estarmos unidos”, diz ela.

“Devemos deixar quaisquer diferenças de lado, focando apenas no objetivo principal que é lutar contra o ‘regime sionista’ e trazer a paz novamente”, afirma.

Para a brasileira, a prioridade da maior parte da população neste momento é a luta contra o “regime sionista”, como o governo iraniano se refere ao Estado de Israel.

Ela relata que, nos últimos dias, a imprensa do Irã divulgou a interceptação de caminhonetes carregadas com drones que teriam sido enviados por Israel para realizar ataques internos.

Segundo Fátima, os cidadãos iranianos têm colaborado com as autoridades e alertado sobre movimentações suspeitas, em apoio às ações dos serviços de inteligência do país.

Programa nuclear do Irã e protestos contra Israel

Fátima descreve um cenário relativamente calmo em Qom, que fica cerca de 160 km ao sudoeste de Teerã, a capital do país.

Qom é a segunda cidade mais sagrada entre os xiitas e hospeda um famoso seminário islâmico, onde o próprio aiatolá Ruhollah Khomeini, fundador da República Islâmica, estudou e lecionou.

“A situação em Qom está tranquila em relação à capital do Irã. Apesar de dois drones terem sido abatidos no céu da cidade sagrada, as pessoas não estão com medo e estão vivendo suas vidas normalmente. Porém, estamos em alerta”, destaca.

Fátima conta que além dos dois drones abatidos na região, também houve explosões em instalações nucleares próximas da cidade, mas ressalta que a rotina da cidade segue normalmente, embora em estado de alerta.

Segundo a brasileira, protestos contra Israel ocorreram em Qom e em outras cidades do país nos últimos dias, como forma de demonstrar apoio ao líder supremo iraniano.

“Vários protestos contra o ‘regime sionista’ foram registrados tanto na cidade de Qom quanto em outras cidades do Irã, sendo essa uma forma de demonstrar que o povo apoia o Líder Supremo do Irã, Sayed Ali Khamenei. O povo está unido, concentrando-se em apenas um único propósito, justiça”, diz ela.

Fátima também critica o apoio dos Estados Unidos a Israel e afirma que isso reforça a desconfiança de muitos iranianos em relação a possíveis acordos com o Ocidente.

Ela diz que o Irã só aceitou negociar com os norte-americanos para provar que, na visão do país, os EUA não têm interesse real no bem-estar do povo iraniano.

Com a intensificação dos ataques israelenses, ela relata que muitos moradores de Teerã passaram a se deslocar para outras partes do país, inclusive para Qom, em busca de segurança.

Sobre o programa nuclear, Fátima diz duvidar que o Irã queira construir armas nucleares.

Ela pontua que, há décadas, Israel acusa o Irã de estar perto de produzir uma bomba atômica, mas que isso nunca se comprovou.

Segundo Fátima, o uso de armas nucleares contraria os princípios islâmicos e que o próprio líder Ali Khamenei teria emitido uma ordem religiosa proibindo sua fabricação.

Na visão dela, o debate nuclear é apenas mais uma justificativa usada para justificar ações militares semelhantes às que já ocorreram no Afeganistão, na Síria, no Líbano, na Palestina e no Iraque.