Américo Martins
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Américo Martins

Especialista em jornalismo internacional e fascinado pelo mundo desde sempre, foi diretor da BBC de Londres e VP de Conteúdo da CNN; já visitou mais de 70 países

China foi a grande vencedora relativa da guerra no Irã, diz consultoria

The Asia Group, baseada nos Estados Unidos, afirma que gigante asiático conseguiu resistir aos choques provocados pelo conflito graças à sua resiliência energética e à capacidade de resposta do Estado chinês

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A China foi a grande vencedora, em termos relativos, da crise provocada pela guerra no Irã e pelo fechamento do Estreito de Ormuz.

A conclusão é da The Asia Group, uma das principais consultorias estratégicas e de investimentos baseada nos Estados Unidos, mas com foco no continente asiático, que divulgou nesta semana um relatório detalhado sobre o impacto da crise na região.

O documento foi intitulado “Sem porto seguro - a contínua exposição da Ásia a perturbações no Estreito de Ormuz”. Ele reconhece que o mundo todo sofreu economicamente com a guerra, não apenas a região.

No entanto, a China conseguiu transformar parte da crise em vantagem estratégica, o que a coloca como a vencedora relativa do episódio, diz o relatório.

“A China está em melhor posição para resistir aos choques, com vantagens relativas que podem permitir que ela saia fortalecida em relação aos seus pares regionais”, pontua o texto.

Em outras palavras, embora o impacto tenha sido generalizado na economia mundial, Pequim reúne condições para atravessar a turbulência em posição mais favorável do que seus concorrentes.

Dois fatores principais estão por trás dessa conclusão: a resiliência energética do país e a capacidade de resposta do Estado chinês à crise.

O primeiro ponto está relacionado às grandes reservas estratégicas de petróleo e aos investimentos recentes e bem-sucedidos do país em energia limpa.

Durante o período mais crítico, a China reduziu importações, utilizou estoques e diminuiu o processamento em refinarias, ajudando, inclusive, a aliviar a pressão sobre os preços internacionais.

Tudo isso não apenas reforçou a resiliência interna, mas também aumentou a influência do país no funcionamento do mercado global de energia.

Ao mesmo tempo, a alta dos preços dos combustíveis fósseis provocada pelo fechamento do Estreito de Ormuz está impulsionando a transição energética para fontes mais limpas.

Esse movimento beneficia setores nos quais a China já é dominante, ampliando, por exemplo, as vendas de carros elétricos e de produtos ligados à energia solar e eólica.

O relatório afirma que “os preços mais elevados da energia deverão acelerar a procura global por eletrificação e tecnologias limpas, setores nos quais a China já detém uma posição dominante”.

A crise também reforça escolhas estratégicas de longo prazo feitas por Pequim.

Em vez de provocar mudanças de rumo, o episódio tende a consolidar o modelo econômico atual do país, segundo o documento.

“É provável que a crise reforce, em vez de alterar, a estratégia econômica existente da China, focada na autossuficiência e na força industrial”, aponta o relatório.

É importante lembrar aqui o caráter autoritário do governo comunista chinês. Isso pode, como aponta a consultoria, dar mais agilidade às decisões do governo, mas limita muito qualquer debate interno, o que torna mais difícil a correção de rumos em caso de eventuais erros cometidos pelo poder central.

Por fim, o relatório destaca que a China também tem conseguido vender a parte do mundo a ideia de que, ao contrário dos Estados Unidos, é um “parceiro confiável”, pouco interessado em aventuras militares em outras regiões e focado na estabilidade dos acordos firmados com outros países.

Mais uma vez, o autoritarismo chinês faz surgir muitos questionamentos sobre esse tipo de posicionamento de Pequim, muito mais interessado em fortalecer a sua posição e explorar crises envolvendo adversários do que garantir no longo prazo a estabilidade também dos parceiros.