Estrategista detalha ofensiva da Ucrânia para deter os russos
Maksym Skrypchenko, presidente do Transatlantic Dialogue Centre, disse à CNN que exército ucraniano vai aumentar ataques de longa distância dentro do território da Rússia para ampliar a pressão sobre o Kremlin

A guerra na Ucrânia está em uma nova fase, mais agressiva, ainda mais tecnológica e muito ambiciosa, pelo menos do ponto de vista de Kiev.
Essa é a avaliação de Maksym Skrypchenko, presidente do think tank de estratégia militar a política internacional Transatlantic Dialogue Centre, com base em Kiev.
Em entrevista exclusiva à CNN, ele afirmou que seu país adotou desde o início do ano uma profunda virada estratégica que muda a lógica do confronto.
“O campo de batalha não é mais apenas o território ucraniano. Ele se expandiu e ainda vai se expandir mais, com muito mais ataques profundos dentro do território da Rússia”, disse ele.
Na definição dele, o país já não luta apenas para sobreviver mas procura impor custos cada vez mais altos para o Kremlin, levando a guerra para as grandes cidades da Rússia, como Moscou e São Petersburgo.
Apesar da recente falta de interceptadores para deter os ataques com mísseis da Rússia, Skrypchenko detalha três pontos que a Ucrânia vai continuar perseguindo na guerra.
O primeiro movimento dessa virada, segundo ele, é que a Ucrânia deixou para trás a postura puramente defensiva.
Hoje, aposta em uma doutrina de guerra de longo alcance. Isso significa atacar a infraestrutura militar, as bases aéreas, os centros logísticos e, sobretudo, as operações industriais que sustentam o esforço de guerra de Moscou.
A lógica, segundo ele, é aumentar literalmente os custos de guerra para o presidente Vladimir Putin. Afinal, quanto mais a Rússia gastar para se defender, menos capacidade terá para atacar.
“O objetivo é degradar a capacidade militar russa e, ao mesmo tempo, atingir sua infraestrutura crítica”, diz Skrypchenko.
O segundo pilar dessa transformação é a velocidade. A Ucrânia virou um laboratório de inovação militar em tempo real. Em vez de esperar anos por novos sistemas de defesa, o país está adaptando, testando e colocando em combate novas tecnologias em questão de semanas.
Tecnologias antigas, muitas delas herdadas da era soviética, são combinadas com componentes ocidentais e transformadas em novos sistemas de combate.
Segundo ele, engenheiros e militares trabalham em ciclos curtos, com ajustes constantes baseados no desempenho em campo.
Ao mesmo tempo, a produção foi descentralizada. Não há mais um único ponto vulnerável. A indústria de defesa ucraniana se espalhou, tornou-se mais resiliente e capaz de se recompor rapidamente mesmo depois de ataques russos.
O terceiro eixo é talvez o mais estratégico: a guerra de saturação e desgaste econômico.
A Ucrânia passou a usar drones e armas de longo alcance em grande escala para sobrecarregar as defesas aéreas russas. O objetivo não é apenas atingir alvos, mas é forçar Moscou a gastar seus próprios armamentos de defesa e a se desgastar.
Cada interceptador lançado pela Rússia tem custo alto. Cada ataque obriga o Kremlin a redistribuir recursos, proteger novas áreas, reforçar infraestruturas. É uma equação que pressiona o sistema por dentro, segundo o estrategista.
Ao mesmo tempo, Kiev mira diretamente o setor de petróleo e gás, o mais sensível da economia russa.
Refinarias, depósitos e rotas logísticas de petróleo passaram a ser alvos prioritários com a clara intenção de atingir a principal fonte de financiamento da guerra do Kremlin.
O resultado é uma mudança estrutural no conflito. A guerra já não é apenas sobre território, mas sobretudo sobre a capacidade industrial, velocidade de inovação e resistência econômica dos dois lados.
*Américo Martins viajou à Ucrânia a convite do think tank Transatlantic Dialogue



