Américo Martins
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Américo Martins

Especialista em jornalismo internacional e fascinado pelo mundo desde sempre, foi diretor da BBC de Londres e VP de Conteúdo da CNN; já visitou mais de 70 países

Lula defenderá multilateralismo e ampliará parceria estratégica com a Índia

Presidente brasileiro vai discutir reformas na governança global com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, e assinar acordos nas áreas de minerais críticos, agricultura e indústria

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou nesta quarta-feira (18) a Nova Délhi, dando início a uma visita que tem o objetivo de ampliar a parceria estratégica com a Índia e discutir alianças entre os países do sul global para a defesa do multilateralismo.

A viagem inclui a visita de Estado, com encontros privados com o primeiro-ministro Narendra Modi, e a participação do presidente na Cúpula Internacional sobre o Impacto da Inteligência Artificial, organizada pelo governo indiano e que reúne líderes políticos e executivos de algumas das maiores empresas globais de tecnologia.

A viagem acontece no momento de maior proximidade na relação entre Brasil e Índia, tanto no campo geopolítico como econômico.

Nos últimos dois anos, aumentou o número de missões empresariais brasileiras no país asiático, e também se intensificaram projetos conjuntos em defesa, ciência, tecnologia e inovação.

 

A economia indiana cresce em ritmo acelerado, de mais de 6% ao ano, em média nos últimos cinco anos, e o país se consolida como um dos principais polos industriais e tecnológicos do mundo em desenvolvimento.

Os dois países também estão sendo cada vez mais assertivos no cenário geopolítico, defendo posições similares, por exemplo, com relação à defesa do multilateralismo, do livre comércio e na tentativa de ampliar o peso do chamado Sul Global em todos os fóruns internacionais.

Objetivos da viagem

Lula terá dois compromissos centrais durante a visita.

O primeiro é a participação nas discussões sobre a necessidade de criação de regras globais para o uso da inteligência artificial, que deve ocupar lugar importante na cúpula.

Os governos do Brasil e da Índia têm defendido uma forte regulação global do tema para maximizar os benefícios dessa reforma tecnológica, mas também para tentar impedir os seus efeitos negativos, como uso contra valores democráticos e extinção súbita de milhões de postos de trabalho.

É possível, no entanto, que tanto Lula como Modi moderem parcialmente os seus discursos para evitar algum confronto direto com o governo dos Estados Unidos, já que o presidente Donald Trump é contra esse tipo de regulação — e tanto Índia como Brasil ainda têm muitos itens para acertar na relação com a Casa Branca.

Visita de Estado

Depois da cúpula de IA, Lula dará início à visita de Estado propriamente dita. A pauta de discussões é extensa e vai muito além dos tradicionais acordos comerciais.

Os dois líderes pretendem tratar da situação internacional, da defesa do multilateralismo e da necessidade de reformas nas instituições globais, sobretudo nas Nações Unidas e no Conselho de Segurança, uma reivindicação histórica tanto do Brasil quanto da Índia.

A guerra em Gaza e outras crises internacionais também devem entrar nas conversas.

Tanto Lula como Modi foram convidados pelo presidente Trump para fazer parte do chamado Conselho de Paz para discutir a reconstrução de Gaza. Os líderes, no entanto, ainda não deram uma resposta final sobre suas possíveis participações.

A posição defendida pelos dois países tem sido a de reforçar soluções diplomáticas, a reconstrução das áreas devastadas e a preservação de mecanismos multilaterais de negociação, em um cenário internacional cada vez mais polarizado.

Minerais estratégicos e indústria

Entre os resultados mais concretos esperados da visita está a assinatura de acordos na área de minerais críticos e terras raras.

Trata-se de um tema que ganhou peso na política externa de vários países por causa da transição energética e da corrida tecnológica, que tem dado considerável vantagem para a China em relação aos Estados Unidos.

Brasil e Índia vêm defendendo uma linha semelhante para a questão, dizendo que não querem apenas extrair e exportar esses recursos como simples commodities.

A ideia é desenvolver cadeias industriais capazes de processar e transformar esses minerais localmente, gerando empregos, tecnologia e valor agregado nos dois países.

Para diplomatas das duas nações, esse é um campo em que a cooperação pode crescer de forma consistente nos próximos anos.

Outro ponto de destaque é o setor aeronáutico.

A brasileira Embraer vem ampliando sua presença na Índia, que hoje é um dos mercados mais promissores do mundo para a aviação regional e para a indústria de defesa.

A expectativa é que a visita ajude a impulsionar negociações com empresas locais e abra espaço para novos contratos.

Por fim, e como em quase todas as viagens internacionais do presidente, a área agrícola também aparece como prioridade.

O governo brasileiro tenta ampliar o acesso de produtos como carne de frango e feijão ao mercado indiano, onde há grande demanda por alimentos básicos.

Ao mesmo tempo, a Índia é um importante parceiro na discussão sobre segurança alimentar e produção agrícola em larga escala.

O comércio bilateral tem crescido de forma consistente e já alcança patamares recordes.

Os dois governos trabalham com a meta de elevar significativamente esse intercâmbio até o fim da década, enquanto avançam com as negociações para ampliar o acordo comercial entre a Índia e o Mercosul, iniciativa considerada essencial para reduzir barreiras e estimular novos investimentos.