Para John Kerry, Belém precisa ser a COP da implementação
Em entrevista exclusiva ao blog, o ex-enviado especial para o clima dos Estados Unidos disse que “o tempo de conversa acabou” e que agora as decisões precisam ser realmente colocadas em prática para diminuir o uso dos combustíveis fósseis
O ex-enviado especial para o clima dos EUA John Kerry afirmou à CNN Brasil que Belém precisa entrar para a história como a “COP da implementação” de medidas efetivas contra as mudanças climáticas. “O desafio agora é a implementação. O tempo de conversa acabou”, afirmou ele com exclusividade a este blog.
John Kerry ainda destacou que é preciso se concentrar em escolhas para acelerar a transição para uma economia de baixo carbono em nível global. E que, apesar das ações em curso, elas ainda não acontecem em grande escala e "nem com rapidez suficiente”, disse ele.
Kerry foi também ex-secretário de Estado dos EUA durante o governo de Barack Obama e um dos principais negociadores das últimas COPs, representando o país como enviado especial do presidente Joe Biden.
Kerry e a COP30 no Brasil
Na entrevista à CNN, ele se disse otimista com os possíveis resultados da COP30.
“Espero que as reuniões (em Belém) possam impulsionar as pessoas, incentivá-las. Que elas vejam o que outros países estão fazendo, que compartilhem experiências, compartilhem tecnologia, e que possamos avançar muito mais rápido e com muito mais eficácia. Essa é a esperança”.
Kerry reforçou a urgência para reduzir o uso de combustíveis fósseis e acelerar a transição energética em todos os setores da economia.
A posição de Kerry também está alinhada com a presidência brasileira da COP30, que vem defendendo a ideia de que os negociadores de todos os países devem se concentrar em ações efetivas de implementação do que já foi acordado em reuniões anteriores.
Trump, Acordo de Paris e o papel dos EUA
O político americano criticou duramente a postura do presidente Donald Trump, que anunciou a retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris e alertou para os riscos de um novo ciclo de negacionismo climático nos Estados Unidos.
“Não estar no Acordo de Paris e não ir à COP prejudica a unanimidade e o amplo consenso multilateral necessário para fazer o que precisamos fazer”, disse Kerry.
Apesar da postura de Trump, o democrata destacou que governos locais e empresas americanas continuarão comprometidos com a agenda verde durante o mandato de Trump.
“No final do primeiro mandato dele, 75% da nova eletricidade nos EUA já vinha de fontes renováveis. Hoje, são 90%. Isso não vai voltar atrás”, disse o ex-enviado especial para o clima.
Cooperação com países em desenvolvimento
Para o ex-secretário de Estado, países como Brasil, China e Índia podem ter papel fundamental na liderança da agenda climática, inclusive ajudando a compensar a ausência de apoio de alguns governos ocidentais.
Ele destacou a importância de alianças globais para proteger áreas sensíveis, como a Antártida e os oceanos. “O Brasil pode ter um impacto profundo. Precisamos da proteção do Oceano Antártico, e países em desenvolvimento têm vozes poderosas para fazer isso acontecer. O mundo desenvolvido terá que acompanhar”, disse.
Kerry também celebrou o fato de 49 países já terem ratificado o tratado dos oceanos, o que - segundo ele - pode resultar em dois terços dos oceanos do planeta protegidos sob regras internacionais.
“O oceano e a crise climática estão interligados. Resolver uma ajuda a resolver a outra”, concluiu.



