Américo Martins
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Américo Martins

Especialista em jornalismo internacional e fascinado pelo mundo desde sempre, foi diretor da BBC de Londres e VP de Conteúdo da CNN; já visitou mais de 70 países

Reino Unido quer parceria com Brasil em defesa e na reforma multilateral

Em entrevista exclusiva à CNN Brasil, embaixadora Stephanie Al-Qaq defendeu iniciativas estratégicas bilaterais e esforços para reforçar o sistema multilateral

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O governo do Reino Unido quer aprofundar a parceria com o Brasil em áreas estratégicas, entre elas defesa e combate ao crime organizado, e vê o país como um aliado central para fortalecer o sistema multilateral internacional.

As declarações foram dadas pela embaixadora do Reino Unido no Brasil, Stephanie Al-Qaq, em entrevista exclusiva à CNN Brasil.

Al-Qaq lembrou que os dois países já têm uma cooperação importante em setores como clima, saúde, ciência e tecnologia, além de iniciativas conjuntas em pesquisa e intercâmbio acadêmico. “Estamos trabalhando em áreas onde podemos fazer uma diferença”, disse ela, durante uma visita a Londres nos últimos dias.

A embaixadora destaca, no entanto, que o Reino Unido também quer ampliar muito a relação política com o Brasil para, entre outras coisas, tentar reformar e fortalecer as instituições multilaterais.

Al-Qaq afirmou que Londres apoia mudanças no Conselho de Segurança da ONU, incluindo apoiar a ideia de um possível assento permanente para o Brasil, e disse que o sistema precisa de reformas para voltar a funcionar de forma mais eficaz.

A embaixadora fez questão de enfatizar que o Reino Unido não é um obstáculo a essas mudanças. Pelo contrário, afirmou, o país tem levado propostas e ideias às discussões internacionais.

“Não é o Reino Unido que está atrapalhando”, disse, ao defender que as instituições multilaterais precisam ser fortalecidas diante dos desafios globais.

O debate ganha peso num momento em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, trabalha abertamente para enfraquecer o sistema multilateral.

Na estratégia defendida por Trump, baseada na política de “América em primeiro lugar”, instituições internacionais mais enfraquecidas e paralisadas, como a ONU e várias outras, abrem espaço para um cenário na qual os países mais fortes podem praticamente impor sua vontade aos mais fracos.

As políticas norte-americanas defendem um mundo dividido em zonas de influência, uma ideia que enfrenta a resistência de países considerados potências médias, como o Brasil e o Canadá, por exemplo, que veem na reforma do sistema multilateral justamente um caminho para evitar esse tipo de ordem internacional.

Recentemente, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, defendeu em Davos que países médios atuem de forma coordenada para resistir à pressão das grandes potências e preservar regras internacionais comuns.

A posição britânica tem peso particular nesse debate. O Reino Unido é uma potência nuclear e um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, com poder de veto. Sendo assim, um dos centros de decisão mais importantes do sistema internacional.

Outro eixo central da entrevista foi a intenção de ampliar a cooperação entre Brasil e Reino Unido na área de defesa.

A embaixadora destacou que os dois países já mantêm um relacionamento histórico no setor e que há espaço para avançar, especialmente no compartilhamento de tecnologia, inteligência e desenvolvimento conjunto de equipamentos.

Segundo Al-Qaq, a parceria não deve se basear apenas na venda de produtos militares. O objetivo, afirmou, é desenvolver sistemas em conjunto e fortalecer a indústria de defesa dos dois lados.

“Estamos interessados não só em vender coisas, mas em construir junto, aprender junto”, disse ela.

A embaixadora citou como exemplo programas de cooperação tecnológica e até o caso do caça Gripen, que foi desenvolvido pela Suécia mas que tem muitos componentes tecnológicos britânicos e, hoje, também brasileiros, ilustrando um modelo de parceria que, segundo a diplomata, deve se expandir nos próximos anos.

A embaixadora também afirmou que o aumento dos investimentos em defesa, tanto no Reino Unido quanto no Brasil, abre novas oportunidades para aprofundar a cooperação.

Para ela, o compartilhamento de informações, inteligência e conhecimento é essencial diante de novos desafios militares, como o uso crescente de drones e tecnologias de menor custo em conflitos recentes.

Ao longo da entrevista, Al-Qaq reforçou que Brasil e Reino Unido compartilham valores e uma visão pragmática nas relações internacionais.

E indicou que, num momento de incerteza global e de questionamento das instituições multilaterais, Londres vê Brasília como um parceiro-chave. Tanto para preservar as regras do sistema internacional quanto para adaptá-lo a uma nova realidade.