Américo Martins
Blog
Américo Martins

Especialista em jornalismo internacional e fascinado pelo mundo desde sempre, foi diretor da BBC de Londres e VP de Conteúdo da CNN; já visitou mais de 70 países

Saiba como o Brasil fez chegar aos EUA mensagens para atenuar tarifaço

Liderado por Alckmin, esforço contou com coordenação estreita entre ministros, diplomacia brasileira e o setor privado, mas enfrentou fortes resistências na Casa Branca

Compartilhar matéria

Um movimento articulado por ministros, diplomatas e líderes do setor privado conseguiu fazer chegar a autoridades dos Estados Unidos mensagens que ajudaram a reduzir o impacto do tarifaço imposto ao Brasil pelo presidente Donald Trump.

A estratégia foi colocada em prática assim que o governo brasileiro percebeu a resistência da Casa Branca a qualquer diálogo formal com seus representantes.

Com os canais institucionais bloqueados por ordem direta de Trump, o vice-presidente e ministro da Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, assumiu a liderança de um esforço conjunto que mobilizou diferentes áreas do governo e atores não estatais.

A iniciativa envolveu forte colaboração entre o Itamaraty e empresas com presença ativa em Washington.

O Itamaraty ajudou a abrir portas junto a oficiais e agências do governo americano e a elaborar as estratégias de aproximação. Alckmin conversou com muitos setores e empresários dos dois países. O Ministério da Fazenda abriu articulações com agentes econômicos dos dois lados.

 

Segundo uma fonte envolvida nas negociações, todos os interlocutores brasileiros mantiveram uma mensagem unificada: tarifas amplas e lineares seriam economicamente prejudiciais para os dois lados, inclusive para empresas e consumidores dos EUA.

Outro ponto central foi a recusa categórica do governo brasileiro em tratar de questões políticas ligadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A independência entre os Poderes e a solidez da democracia brasileira foram reafirmadas em todas as conversas.

Motivação política

As articulações foram feitas com discrição, para evitar possíveis sabotagens de atores políticos interessados em ampliar o confronto entre o Brasil e Trump.

Nos bastidores, fontes diplomáticas relataram que, ao longo das tratativas, ficou evidente a falta de disposição de Trump para qualquer tipo de negociação real.

Isso reforçou a avaliação de que suas medidas tinham motivação política, mas também fortaleceu a determinação de Brasília em manter o foco exclusivamente na agenda econômica. Além disso, foi decidido que o diálogo com autoridades não diretamente ligadas à Casa Branca e com atores não governamentais deveria ser ampliado.

Apesar das dificuldades, o governo brasileiro seguiu empenhado em mitigar danos — e continuou batendo em muros altos.

Na semana passada, diplomatas receberam sinais definitivos de que a decisão de Trump era irreversível. Ele avançaria com as tarifas, mas ainda não estava claro se elas seriam lineares ou se deixariam de fora alguns poucos setores.

Como havia margem para tentar atenuar os efeitos do tarifaço e ampliar a lista de exceções, o governo insistiu. Reuniões com diferentes agências e empresários americanos foram realizadas nos dias seguintes.

O presidente Lula passou a dar mais entrevistas à imprensa internacional, especialmente à americana, dizendo calmamente que respeitava os Estados Unidos, mas que a soberania brasileira não podia ser negociada.

No Brasil, ministros mantiveram a mesma linha, falando com mais frequência com a imprensa e evitando atritos na reta final. Os esforços acabaram ajudando a ampliar a lista de exceções, e setores importantes foram excluídos da relação de produtos tarifados.

Embora reconheça que os americanos agiram principalmente com base em seus próprios interesses, o governo considera que os esforços ajudaram a ampliar a compreensão sobre o impacto das tarifas e abriram caminho para futuras negociações — que serão importantes, especialmente diante de possíveis novas tensões comerciais.

O maior reconhecimento desse trabalho veio na última quarta-feira (30), com a primeira reunião entre o chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio.

No encontro, Vieira reiterou as posições centrais do governo: o Brasil não aceitará negociar questões políticas, mas está disposto a tratar de qualquer tema comercial.

Segundo a CNN apurou, Rubio mais ouviu do que falou, mas a conversa foi vista como uma validação dos esforços diplomáticos e um passo inicial para que o diálogo continue.

No entanto, uma fonte com acesso direto às negociações alerta: tudo, no fim, sempre depende da vontade de Trump. E ele pode, a qualquer momento, ordenar a interrupção de qualquer diálogo ministerial.

O governo brasileiro sabe que essa instabilidade nas relações vai continuar, mas julga que encontrou um caminho de ação para futuros possíveis embates.

Negociações em andamento

De qualquer forma, o governo não ficou satisfeito com os resultados – afinal, muitos setores, empresas e trabalhadores serão duramente afetados pelas tarifas americanas.

Além disso, Brasília sabe que os Estados Unidos continuam tendo muitos instrumentos de pressão política contra o país.

A ideia de fontes ouvidas pela CNN é continuar as tratativas com os Estados Unidos, inclusive para tentar retirar mais setores da lista de tarifas.

Apesar das dificuldades, no entanto, existe uma avaliação de que o trabalho intenso das últimas semanas ajudou, inclusive, em um resultado concreto que veio com a reunião entre Mauro Vieira e Marco Rubio.