Soldada de 21 anos conta à CNN como matou dezenas de russos com drones
Em entrevista exclusiva, militar diz que matar virou rotina e que sente “satisfação pelo dever bem cumprido” ao proteger seu país

No meio de um matagal, entre trincheiras abertas às pressas numa faixa de terra disputada por russos e ucranianos, na divisa entre as regiões de Kharkiv e o Donbass ocupado, uma jovem soldada ucraniana de 21 anos mostra à reportagem da CNN Brasil como ela opera drones com a missão de matar inimigos e destruir seus equipamentos.
A militar se identifica apenas como Ksana, seu nome de guerra, e afirma que já eliminou dezenas de soldados do Kremlin, além de ter destruído centenas de posições estratégicas dos russos.
“Sim, esse é o meu trabalho”, responde, de forma direta e fria, ao ser questionada se já matou alguém com os drones.
Sobre números, consulta um superior que a aconselha a evitar ser precisa. “Já consegui causar muitos danos e eliminar muitos soldados e equipamentos e prédios estratégicos,” diz depois de ter dado a entender que suas vítimas já passam da primeira centena.
A entrevista acontece no fim da tarde, ao lado de trincheiras cavadas numa área que foi ocupada pelos russos no início da guerra.
De colete e capacete, Ksana demonstra como prepara o drone para seus ataques. Ela acopla um explosivo termobárico compacto, capaz de destruir abrigos subterrâneos, conecta a bateria ao aparelho e o sistema de detonação. A explosão pode ser acionada à distância ou acontecer por impacto, diz ela.
Muitos dos drones usados por Ksana são ligados a bobinas de fibra óptica que podem alcançar até 25 quilômetros. Isso permite que ela opere longe da linha de contato, guiando o equipamento com óculos que transmitem imagens em tempo real . “É quase como num videogame”, descreve ela.
Nesse trecho da linha de frente, os drones ditam o ritmo da guerra, vigiando o terreno e impedindo qualquer movimento. Mas o uso das bobinas de fibra óptica foi uma inovação posterior, inicialmente feita pelos russos, para impedir que os inimigos interferissem no sistema de comunicação entre o operador e o drone, derrubando a aeronave não tripulada.
Drones em todos os lugares
Os drones estão presentes em toda a linha de frente. Pouco antes da entrevista com Ksana, a reportagem da CNN teve que abandonar às pressas uma área destruída na vila de Staryy Saltiv por causa de um ataque com drones russos, que acabaram derrubados pelos soldados ucranianos.
Durante a conversa com Ksana, também houve uma movimentação de drones de vigilância, mas neste caso dos próprios ucranianos.
Dois equipamentos surgiram no horizonte, um de vigilância e o outro de ataque, e sobrevoaram a área de forma tensa.
Ksana e os três militares que a acompanhavam acionaram o rádio. Mas minutos depois, uma patrulha aparece no meio do matagal para confirmar que não se tratava de uma infiltração russa. Ksana e o produtor local da CNN tranquilizaram os soldados e explicaram que se tratava de uma reportagem.
Com pele muito branca apesar do verão no hemisfério norte, cabelos negros e longos e mãos calejadas pelas batalhas, Ksana diz que se alistou assim que completou 18 anos. “Amo a Ucrânia”, afirma.
A militar começou na infantaria e participou de combates diretos. Foi a primeira experiência em lutas quase cara a cara com os russos, e também a primeira vez que matou um inimigo.
“A primeira vez é uma mistura de sentimentos. Você sente uma adrenalina enorme”, lembra. “Mas é muito pesado. Não quero passar por aquele tipo de batalha de novo.”
A mudança para os drones veio depois.
“É um trabalho árduo e perigoso também, mas não envolve contato direto com o inimigo”, diz.
Ainda assim, o impacto psicológico permanece. “Você tem que matar o inimigo. É para isso que você está aqui. É o seu trabalho. E, depois da primeira vez, passa a ser encarado como trabalho mesmo”, afirma ela, sem demonstrar qualquer tipo de emoção.
“Existem alvos que, para nós, são como um grande jogo. Eles (os alvos inimigos) correm, fazem manobras evasivas, e conseguir alcançá-los é muito legal”, afirma.
Em outra situação, relata: “Dizem para você: ‘Seu alvo mudou; você pode eliminar dois ou três com apenas um drone’. E você pensa: ‘Poxa, isso é muito bom’.”
Apesar do tom, há momentos de tensão. “Já fui alvo de disparos também. Mas consegui completar o objetivo”, conta.
Ksana diz que nunca foi fã de videogames, mas reconhece a semelhança. “Quando operamos drones, parece um videogame. Mas a diferença é que aqui é real.”
Ao falar sobre o que sente hoje, a resposta vem sem hesitação. “Sinto satisfação pelo dever bem cumprido, pois estou protegendo o meu povo e a minha terra.”
Depois de três anos de guerra, Ksana diz sem rodeios qual a missão dela e de seus colegas. “Trabalhamos, eliminamos o inimigo e tentamos eliminar cada vez mais para acabar o mais rapidamente possível com a guerra.”



