Ucrânia muda narrativa para mostrar que tem “cartas” para vencer a Rússia
Estratégia de Kiev é convencer líderes mundiais de que o país está na ofensiva e teria força suficiente para deter novos avanços do Kremlin

O governo da Ucrânia mudou radicalmente a sua narrativa de guerra nos últimos meses para tentar convencer o mundo e, em especial, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que o país tem “cartas” para derrotar a Rússia.
A virada começou depois do famoso episódio entre o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, e Trump no Salão Oval da Casa Branca, em fevereiro de 2025, quando os dois bateram boca e trocaram críticas públicas sobre o rumo da guerra e o nível de apoio americano.
Até então, a estratégia de Kiev era centrada em apelos por ajuda militar e financeira dos Estados Unidos e da Europa, destacando a necessidade desse suporte para conter o avanço russo e alertando para os riscos de expansão do conflito para além da Ucrânia.
Trump chegou a dizer que Zelensky era o “maior vendedor do mundo” porque conseguia bilhões de dólares em ajuda cada vez que visitava Washington durante o governo de Joe Biden.
Os apelos faziam sentido e, de certa forma, ainda continuam sendo feitos. Mas eles também revelavam um lado fraco da Ucrânia, completamente dependente da ajuda externa.
Após o confronto público, as autoridades ucranianas entenderam que não teriam mais o apoio quase ilimitado da Casa Branca e passaram a recalibrar seu discurso.

A leitura em Kiev foi a de que depender excessivamente do apoio americano era um enorme risco estratégico.
Desde então, o país tem buscado projetar uma imagem de maior autonomia ao mesmo tempo em que tenta maximizar o uso dos recursos ainda recebidos, seja em armamento, financiamento ou treinamento militar.
Nos últimos meses, a narrativa oficial ucraniana passou a enfatizar muito cada avanço no campo de batalha, cada ataque a cidades russas distantes da linha de frente e, sobretudo, a capacidade crescente de produzir sistemas próprios de defesa.
Internamente, os ucranianos também se esforçam para mostrar que continuam tendo uma vida relativamente normal. Dentro desse esforço, destaca-se, por exemplo, a decisão de limpar imediatamente cada local destruído por mísseis nas grandes cidades para evitar que as cenas de prédios desabando acabem virando símbolo das fraquezas do país.
A Ucrânia de hoje não se apresenta apenas como uma nação que resiste ao invasor na tentativa de sobreviver como Estado, mas também como um ator inovador no campo militar que está remodelando a natureza da guerra por meio do uso massivo de drones de baixo custo e alta precisão.
Essa transformação tem permitido ao país, de fato, ampliar significativamente o alcance de suas operações.

Exemplo disso são os ataques em profundidade contra o território russo, incluindo alvos em Moscou e São Petersburgo, além de infraestruturas estratégicas do setor energético, como refinarias e depósitos de petróleo.
Dados de institutos de defesa e análises independentes indicam que, apenas em 2024 e 2025, dezenas de instalações energéticas russas foram atingidas por drones ucranianos, afetando temporariamente a capacidade de refino do país e elevando os custos logísticos de Moscou.
Essas ações têm impacto direto na estratégia russa.
Ao levar a guerra para dentro do território inimigo, a Ucrânia força o Kremlin a dispersar seus sistemas de defesa aérea, realocar aeronaves e reforçar a proteção de infraestruturas críticas.
Analistas militares apontam que a Rússia tem sido obrigada a deslocar baterias de defesa originalmente posicionadas no front para proteger cidades e instalações estratégicas, o que reduz sua eficiência ofensiva na Ucrânia.
Em termos militares, Kiev está expandindo o campo de batalha e aumentando o custo da guerra para Moscou, enquanto as forças russas enfrentam dificuldades para alcançar avanços territoriais significativos no território ucraniano.
Ainda assim, muitos especialistas alertam que essa nova estratégia, embora eficaz no curto prazo, não representa necessariamente uma reviravolta decisiva no conflito.

A sustentabilidade desse modelo, baseado em inovação tecnológica, produção doméstica e ataques de longo alcance, dependerá da capacidade da Ucrânia de manter sua base industrial ativa sob constante pressão e de continuar recebendo algum nível de apoio externo.
A nova narrativa de Kiev, portanto, cumpre um duplo objetivo: reforçar sua posição perante aliados e adversários e demonstrar que, mesmo diante de incertezas políticas no Ocidente, o país busca construir condições próprias para sustentar a guerra.
Se essa estratégia será suficiente para alterar o equilíbrio do conflito no longo prazo, no entanto, ainda é uma questão em aberto.


