Jogo de xadrez por trás das cotas de carne bovina entre Brasil e Uruguai
Proposta brasileira envolve acesso ao mercado chinês por parte uruguaia e ao europeu por parcela do Brasil

A autorização anunciada nesta segunda-feira (21) para que o Brasil utilize parte do excedente da cota de carne bovina do Uruguai destinada à China movimenta uma peça importante no tabuleiro do comércio global de carne.
De um lado, o Brasil alcançou o limite de sua cota no mercado chinês; de outro, o Uruguai acumula espaço que pode não ser utilizado. No meio desse jogo, entra a União Europeia e uma disputa por acesso a mercados que vai muito além das toneladas de carne.
Os números de agosto já apontavam que, pela conta brasileira, a cota chinesa havia sido ultrapassada. Pela conta chinesa, ainda não.
E essa diferença estatística é uma das peças mais importantes para entender por que o Brasil já tratava a cota como esgotada enquanto o MOFCOM (Ministério do Comércio da China) ainda não havia emitido um alerta de 100%.
Os dados levantados pela GACC (Administração-Geral das Alfândegas da China) e pelo controle administrativo da salvaguarda de Pequim trabalham com o volume que efetivamente entrou e foi desembaraçado no mercado chinês.
Já a estatística brasileira de comércio exterior acompanha os embarques realizados pelos exportadores. Na prática, existe um intervalo entre o momento em que a carne deixa o Brasil e aquele em que ela chega, é registrada e passa pelo desembaraço na China. A própria CNN já havia identificado essa diferença no acompanhamento da cota ao longo deste ano.
Os dados da GACC mostram que, até o fim do mês, a China havia contabilizado 1,14475 milhão de toneladas de carne bovina brasileira, contra uma cota anual de 1,106 milhão de toneladas. Pela conta dos embarques, portanto, o Brasil já estava 38,75 mil toneladas acima do limite, equivalente a uma utilização de 103,5% da cota.
Do outro lado, porém, os dados oficiais chineses ainda apontavam uma situação bem diferente. O último aviso do Ministério do Comércio da China, publicado em 11 de agosto, informou que, em 10 de agosto, as importações brasileiras haviam atingido 90% da quantidade estabelecida para o país.
A regra chinesa determina que a sobretaxa de 55% passa a ser aplicada a partir do terceiro dia, inclusive, depois que o volume chega a 100%.
E aqui está o detalhe que ajuda a explicar o aparente silêncio de Pequim, pois a China não estava necessariamente ignorando que o Brasil havia ultrapassado a cota nos embarques; ela estava contabilizando outra etapa da operação comercial.
Até o fim de agosto, segundo levantamento da Safras & Mercado baseado nos dados oficiais chineses, o Brasil aparecia com 91,53% de utilização da cota. Na mesma base, o Uruguai havia utilizado apenas 28,05% de seu limite de 324 mil toneladas.
A Austrália já havia passado de 100%, enquanto Argentina, Nova Zelândia e Estados Unidos estavam em níveis muito inferiores aos do Brasil.
É aí que o xadrez começa a ficar mais interessante para o comércio internacional da carne bovina.
Em julho, o World Beef Report informou que o Brasil havia apresentado ao Uruguai uma proposta para trocar a utilização de parte da cota uruguaia de carne bovina na China pela parcela brasileira da cota do Mercosul para a União Europeia.
Segundo a publicação, a ideia não foi recebida com entusiasmo por representantes da indústria uruguaia, que questionaram a lógica e a viabilidade da operação.
Mas agora, o Uruguai não está simplesmente entregando ao Brasil um espaço que não utiliza. Existe um possível ativo do outro lado da mesa. E esse ativo é justamente o acesso ao mercado europeu.
O acordo Mercosul-União Europeia criou uma nova cota para carne bovina de 99 mil toneladas anuais, com tarifa de 7,5% dentro da cota, além da chamada Cota Hilton, que possui tratamento próprio. A divisão da nova cota entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai ainda estava em discussão.
No caso brasileiro, o assunto ganhou ainda mais importância porque as exportações de carne bovina para a União Europeia estão suspensas desde 3 de setembro em razão das regras europeias sobre determinados medicamentos antimicrobianos.
A Comissão Europeia retirou o Brasil da lista de países autorizados para bovinos e determinados produtos de origem animal por falta de garantias consideradas suficientes de cumprimento dessas exigências.
O Brasil tem hoje um ativo europeu que, na prática, está temporariamente sem utilização comercial, enquanto o Uruguai possui um ativo chinês que o Brasil pode utilizar.
É justamente essa combinação que torna a negociação tão interessante.
A própria Abiec confirmou, na semana passada, que a divisão da cota de carne bovina do Mercosul para a União Europeia estava em discussão entre os quatro países.
Roberto Perosa afirmou que Brasil, Argentina e Uruguai defendiam uma distribuição baseada na capacidade produtiva e no histórico de exportações, enquanto o Paraguai defendia uma divisão igualitária.
Ao mesmo tempo, o presidente da entidade reconheceu que o Brasil está temporariamente fora do mercado europeu, mas continua trabalhando para garantir sua participação quando o fluxo for retomado.
E há uma razão econômica para o interesse uruguaio nesse mercado. A carne destinada à Europa é predominantemente composta por cortes de maior valor agregado.
As referências de mercado apontavam negócios de carne uruguaia dentro da Cota Hilton na faixa de US$ 18 mil a US$ 18,5 mil por tonelada FOB, e picos de negociação que chegaram a atingir a faixa de US$ 20 mil a US$ 22 mil por tonelada após as discussões cambiais e tarifárias do bloco.
Isso não significa que o Uruguai tenha aceitado formalmente trocar uma coisa pela outra, mas a coincidência merece atenção.
O anúncio desta segunda-feira não trouxe detalhes sobre a contrapartida. O presidente Lula apenas agradeceu ao presidente uruguaio, Yamandú Orsi, pela autorização para utilização do excedente da cota uruguaia de carne bovina para a China.
O governo uruguaio também não divulgou os termos da operação, e a China ainda não confirmou que permitirá que carne brasileira seja contabilizada dentro do saldo uruguaio.
O relógio também joga
Enquanto as peças políticas são movimentadas, existe uma questão prática que pode limitar o efeito da operação ainda em 2026: o tempo.
O volume que está sendo discutido gira em torno de 80 mil toneladas, mas esse espaço ainda não pode ser tratado como uma nova cota brasileira. Primeiro, é necessária a anuência de Pequim e a definição de um mecanismo que permita contabilizar carne de origem brasileira dentro de um volume originalmente atribuído ao Uruguai.
Mesmo que essa autorização venha rapidamente, a janela para aproveitar o espaço neste ano é curta. Considerando um trânsito marítimo entre Brasil e China de aproximadamente 45 a 60 dias, outubro aparece como praticamente a única janela segura para concentrar embarques que ainda tenham possibilidade de ser internalizados em 2026.
A partir de novembro, aumenta o risco de que parte das cargas chegue à China somente em 2027. Isso significa que, quanto mais a decisão chinesa demorar, menor será a possibilidade de utilizar integralmente as 80 mil toneladas ainda neste ano.
Para a indústria brasileira, o volume é administrável em termos de capacidade exportadora. O desafio está em originar, produzir e embarcar rapidamente essa quantidade. Como ordem de grandeza, 80 mil toneladas de carne poderiam representar aproximadamente 320 mil a 400 mil cabeças de gado, dependendo do peso médio das carcaças e do rendimento considerado.
Uma autorização rápida de Pequim poderia, portanto, provocar uma nova movimentação nas compras de boi com padrão China durante outubro. Frigoríficos que reduziram o ritmo de aquisição diante do esgotamento da cota poderiam voltar a disputar matéria-prima para formar rapidamente os lotes destinados ao mercado chinês.
Brasil e Uruguai podem combinar as peças do tabuleiro, mas é a China quem decide se deixa a jogada acontecer.


