Bernardo Pascowitch
Blog
Bernardo Pascowitch

Entusiasta do bitcoin e fundador da fintech Yubb, conta com mais de uma década no ecossistema de tecnologia e inovação no Brasil.

Maior roubo da história das criptomoedas assusta o mercado

Binance sofreu o maior ataque hacker da história do mercado e os investidores precisam estar atentos aos desdobramentos desse episódio

No mercado de criptomoedas, existe uma lição que muitos investidores aprendem do jeito mais difícil: o risco não está apenas no preço do ativo, mas também em onde ele está guardado. Foi exatamente isso que ficou evidente nas últimas horas. Na noite da última quinta-feira (29), a Binance, maior corretora de criptomoedas do mundo, sofreu o maior ataque hacker da história do setor. Quer dizer: não somente o maior ataque hacker da história das criptomoedas, mas o maior roubo da história da humanidade. 

Os números impressionam. Segundo a própria Binance, cerca de US$ 6,3 bilhões foram retirados de suas carteiras em poucos minutos, quase quatro vezes o recorde anterior, o ataque à corretora Bybit em fevereiro de 2025, de aproximadamente US$ 1,5 bilhão (!). A investigação inicial aponta que o acesso ao sistema teria sido obtido por meio do laptop comprometido de um engenheiro da empresa. Analistas de segurança atribuem o ataque a um grupo de hackers ligado à Coreia do Norte, embora essa autoria ainda não tenha sido oficialmente confirmada.  

É importante fazer uma distinção fundamental: não foi o bitcoin que foi hackeado. A rede do bitcoin segue funcionando normalmente. O que falhou foi a segurança operacional de uma empresa que guarda os ativos de seus clientes, a chamada custódia. Em outras palavras, quando deixamos nossas moedas em uma corretora, estamos confiando a ela a guarda desses ativos, e isso envolve um risco que é diferente do risco de preço. Existe uma máxima no setor que resume bem a ideia: quem não controla as chaves, não controla as moedas – embora empresas de autocustódia também tenham enfrentado ataques e vazamentos nas últimas semanas.  

A Binance reagiu rapidamente. A empresa suspendeu depósitos e saques, afirmou que os fundos dos clientes estão seguros e se comprometeu a cobrir todas as perdas com recursos próprios, incluindo um fundo de emergência criado justamente para situações como essa. Cerca de US$ 3 bilhões foram congelados com a ajuda de parceiros, entre eles emissores de stablecoins, as moedas digitais atreladas ao dólar. A expectativa da empresa é de retomar os saques até o próximo domingo, dia 1º de novembro de 2026. 

O mercado, por ora, reagiu com cautela, mas sem pânico. O bitcoin recuou cerca de 5%, para a região de US$ 76 mil, e outras criptomoedas também caíram. Alguns analistas ressaltam que, até agora, não há sinais de que o episódio represente um problema de solvência para a Binance, ou seja, de que a empresa não tenha recursos para honrar seus compromissos. Inclusive, a queda do bitcoin diz respeito mais à correção que estamos vendo na Nasdaq e na bolsa americana do que ao ataque hacker em si. 

Mas há um ponto que merece atenção redobrada: o risco de uma “corrida bancária”. Trata-se de uma situação em que muitos clientes tentam retirar seus recursos ao mesmo tempo por medo de que a instituição não consiga pagar a todos. Como nenhuma instituição mantém todo o dinheiro disponível para saque imediato, uma onda simultânea de pedidos pode esgotar a liquidez e transformar um problema de confiança em um problema real. Na minha leitura, a suspensão dos saques por cerca de 48 horas, além de uma medida de segurança, também funciona como uma proteção contra esse tipo de movimento, dando tempo para a empresa organizar a cobertura das perdas e restabelecer a confiança. 

É preciso, porém, ser cuidadoso com comparações. Em 2022, a queda da FTX também envolveu saques bloqueados e perda de confiança, mas aquele caso era de insolvência e fraude: a empresa simplesmente não tinha os recursos que dizia ter. No caso atual, a Binance afirma que cobrirá as perdas, e não há, até o momento, indicação de que seja um problema dessa natureza. A semelhança está no risco de confiança. A diferença está na origem do problema. De toda forma, o investidor precisa acompanhar a situação de perto, especialmente para analisar possíveis impactos de contágio no mercado cripto como um todo. 

Por isso, o momento mais importante ainda está por vir: a reabertura dos saques. Aqui vale a lógica do “se, então”. Se os saques forem restabelecidos de forma normal, sem filas nem limites, e a saída de recursos da corretora for moderada, a confiança tende a se recompor. Por outro lado, se houver fuga acelerada de recursos, novas restrições ou demora na cobertura das perdas, o risco de contágio para o restante do mercado aumenta.  

Alguns dizem que o mercado já absorveu o pior, enquanto outros acreditam que o verdadeiro teste virá justamente com a normalização dos saques. Não podemos cravar comportamentos futuros, pois o mercado é soberano. O contexto também não ajuda, em uma semana já marcada por incertezas sobre as eleições americanas, o petróleo e os juros. Com a proximidade das eleições americanas, tudo ficará ainda mais volátil e tenso para os investidores.  

Em grande resumo, o episódio reforça uma lição de gestão de risco. Para o investidor de bitcoin e criptomoedas, vale entender onde seus ativos estão guardados, não concentrar tudo em um único lugar e manter a disciplina dos aportes graduais e recorrentes, sem decisões por impulso. Nos próximos dias, a saúde da Binance, depois da reabertura dos saques, será o principal termômetro.  

Acompanhe Economia nas Redes Sociais