Bernardo Pascowitch
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Bernardo Pascowitch

Entusiasta do bitcoin e fundador da fintech Yubb, conta com mais de uma década no ecossistema de tecnologia e inovação no Brasil.

Risco silencioso que vem do Japão ameaça mercados globais

Investidores olham muito para os Estados Unidos, mas pouco para o Japão; momento atual pede justamente o oposto

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Eu sou um grande apaixonado pelo Japão e pela cultura japonesa. Já viajei algumas vezes ao país e sempre saio maravilhado pela cultura, educação, organização, culinária, arquitetura, tecnologia e muitos outros aspectos.

Gosto de dizer que Nova York é a cidade mais incrível do mundo… até você visitar Tóquio. Na minha opinião, nenhuma cidade é tão maravilhosa quanto a capital japonesa.  

Quando estou no Brasil, gosto de acompanhar o que acontece na terra do Sol nascente. Leio sobre novas tecnologias, tendências culturais, exposições e fico pesquisando sobre a minha próxima viagem.

No entanto, realizei recentemente que eu não acompanho muito sobre o mercado de investimentos japonês, tampouco sobre seus aspectos macroeconômicos.

Felizmente, percebi isso a tempo: preciso acompanhar mais sobre o que acontece na economia japonesa, algo bastante negligenciado pelos investidores brasileiros.  

A esse respeito, existe uma máxima que investidores experientes conhecem bem: os maiores riscos não costumam vir de onde todos estão olhando.

Enquanto boa parte da atenção dos investidores brasileiros continua voltada para a política monetária americana, para as tensões no Oriente Médio e para a movimentação recente do bitcoin, uma pressão silenciosa vem se acumulando no outro lado do mundo, justamente no país mais quisto por mim.

Trata-se de um conjunto de acontecimentos que, se não for compreendido a tempo, pode gerar impacto significativo sobre o preço do bitcoin e sobre praticamente todos os ativos de risco globais nos próximos meses, incluindo sobre as ações americanas e de empresas de inteligência artificial. 

Vamos começar pelo básico: o iene japonês, moeda oficial do Japão, opera atualmente próximo dos 162 ienes por dólar americano. Trata-se do menor patamar da moeda japonesa em quatro décadas, ou seja, desde 1986.

Para colocar em perspectiva, a última vez que o iene esteve tão fraco frente ao dólar, o mundo era um lugar completamente diferente: a União Soviética ainda existia, a internet comercial ainda não havia sido criada e o Japão vivia o auge da sua bolha econômica. Você leu corretamente: estamos falando de níveis cambiais que não víamos há praticamente quarenta anos!  

Além disso, os títulos públicos japoneses, conhecidos pela sigla JGBs (Japanese Government Bonds), também estão em patamares extremos. O título de 10 anos rende hoje aproximadamente 2,86% ao ano, o maior nível desde 1997.

O título de 20 anos está próximo de 3,48%, o maior desde 1996. E o mais impressionante: o título de 30 anos opera perto de 4% ao ano, o maior nível desde a criação desse instrumento em 1999.

Alguns chamam isso de "abertura da curva de juros japonesa": quando as taxas futuras sobem de forma consistente, indicando que os investidores exigem prêmios cada vez maiores para emprestar dinheiro ao governo japonês por prazos longos. 

Mas afinal, o que está acontecendo com a segunda maior economia asiática e uma das maiores do mundo? A resposta passa por uma combinação preocupante de fatores.

O Japão possui hoje uma dívida pública equivalente a 256% do seu Produto Interno Bruto (PIB), sem dúvida a maior do mundo desenvolvido.

Adicionalmente, o novo governo da primeira-ministra Sanae Takaichi propôs recentemente uma combinação de aumento de gastos com corte de impostos, o que naturalmente eleva os temores fiscais dos investidores em títulos japoneses.

Por fim, o Banco do Japão (BoJ), vem tentando normalizar sua política monetária após décadas de juros próximos de zero, elevando gradualmente a taxa básica, que hoje se encontra em 1% ao ano, o maior nível desde 1995. 

Aqui chegamos ao ponto que importa diretamente para quem investe em bitcoin, criptomoedas e ações globais.

O grande risco que vem do Japão está em um mecanismo financeiro conhecido como "carry trade", ou operação de carry. Explicando de forma simples: durante décadas, o iene japonês foi a moeda mais barata do mundo para financiamento, dado que os juros no Japão eram próximos de zero enquanto outras economias pagavam juros elevados.

Investidores globais tomavam empréstimos em ienes a custo baixíssimo e usavam esses recursos para comprar ativos mais rentáveis em outras partes do mundo, incluindo ações americanas, títulos de países emergentes, bitcoin e outros criptoativos.  

Segundo dados do Bank for International Settlements (BIS), o total desses empréstimos em ienes espalhados globalmente ultrapassa a marca de US$ 250 bilhões, sendo que analistas do Morgan Stanley estimam o total das posições em carry trade em iene em cerca de US$ 500 bilhões.

Estimar com precisão o tamanho do carry trade em iene é um dos grandes desafios do mercado global, pois os números variam significativamente conforme a metodologia utilizada.

Se considerarmos apenas empréstimos diretos em iene tomados por investidores fora do Japão, dados do Bank for International Settlements (BIS) apontam para algo entre US$ 250 bilhões e US$ 500 bilhões.

Contudo, quando incluímos derivativos cambiais, swaps e posições institucionais menos visíveis, análises da BCA Research estimam que o total pode chegar a algo entre US$ 4 trilhões e US$ 20 trilhões.

Independentemente do critério adotado, o que está em jogo são valores gigantescos, capazes de mover praticamente qualquer mercado de risco global. O problema é que, quando o iene se fortalece de forma abrupta ou quando os juros japoneses sobem rapidamente,essas operações se tornam prejudiciais para os investidores globais, que passam a ser forçados a vender ativos de risco para pagar seus empréstimos em ienes.

Esse movimento é conhecido como "unwinding do carry trade", ou desmontagem das operações. E o efeito sobre o bitcoin, historicamente, é imediato e severo. 

Para ilustrar esse ponto com um caso concreto, vale relembrar o episódio de agosto de 2024. Naquela ocasião, o Banco do Japão surpreendeu o mercado com uma alta inesperada de juros. O resultado foi devastador: o bitcoin despencou de aproximadamente US$ 64 mil para US$ 49 mil em poucos dias, uma queda de quase 30% no total do movimento.

Adicionalmente, ações de tecnologia, títulos de mercados emergentes e diversos outros ativos de risco também sofreram fortes correções. O gatilho não foi nenhum evento específico do universo cripto, mas sim o desmonte forçado das operações de carry trade em iene.

É bem verdade que o cenário atual não é de tanta surpresa como aquele em agosto de 2024. Ou seja: ao contrário de 2024, agora o mercado precifica cada vez mais o aumento do juro japonês. De toda forma, qualquer aumento pode passar por nova volatilidade no mercado global, com impactos negativos sobre o bitcoin, criptomoedas e ações globais.  

Diante desse cenário, o BoJ se encontra em uma posição extremamente delicada, entre a cruz e a espada. Se o banco central japonês subir os juros de forma mais agressiva para conter a desvalorização do iene e a inflação doméstica, pode acionar novamente o unwinding do carry trade, com impactos globais.

Por outro lado, se optar por manter os juros baixos, o iene continuará se desvalorizando, encarecendo importações (especialmente petróleo) e alimentando ainda mais a inflação japonesa.

Trata-se de um dilema sem solução fácil, e a próxima decisão do BoJ, prevista para o dia 31 de julho de 2026, será acompanhada de perto por investidores globais. 

Para o investidor brasileiro que possui posições em bitcoin e criptomoedas, esse cenário adiciona mais uma camada de risco macro que se soma a outras que já discutimos em colunas anteriores: os títulos americanos em máximas desde 2007, a drenagem de liquidez para IPOs de tecnologia e as vendas de bitcoin pela Strategy.

Isoladamente, cada um desses fatores gera pressão. Combinados, formam um ambiente  estruturalmente adverso para os ativos de risco no curto prazo. Alguns dizem que a próxima crise financeira global ou próximo “crash” poderá vir, justamente, do Japão.  

Em grande resumo, o risco silencioso que vem do Japão não é motivo para pânico, mas exige atenção redobrada. O investidor disciplinado precisa entender que o bitcoin não vive em um vácuo, e que decisões tomadas em Tóquio podem afetar tanto quanto ou mais do que decisões tomadas em Washington.

Portanto, mantém-se a recomendação de sempre: aportes graduais, gestão firme de risco e preservação de capital. Em momentos de elevada incerteza global, é justamente a paciência do investidor disciplinado que separa o resultado de longo prazo do prejuízo de curto prazo.

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