Bernardo Pascowitch
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Bernardo Pascowitch

Entusiasta do bitcoin e fundador da fintech Yubb, conta com mais de uma década no ecossistema de tecnologia e inovação no Brasil.

Treasuries americanos disparam e assustam os mercados

Título de 30 anos atinge maior valor desde 2007 e impacta investimentos ao redor do mundo

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No mercado financeiro global, existe um termômetro que poucos investidores brasileiros acompanham, mas que dita o ritmo de praticamente todos os ativos do planeta: o rendimento dos títulos públicos americanos, os chamados Treasuries.

Aliás, poucos especialistas no Brasil sequer mencionam a importância de analisarmos esses títulos da maior economia do planeta. 

A esse respeito, o sinal que esse termômetro vem dando nas últimas semanas é, no mínimo, preocupante.

Na terça-feira passada (19), o Treasury de 30 anos atingiu 5,2% ao ano, o maior patamar desde julho de 2007, ou seja, desde antes da crise financeira global de 2008.

O Treasury de 10 anos, principal referência para hipotecas e crédito ao consumidor americano, também opera próximo dos 4,8%, em máximas do ciclo atual. 

Caso você não se lembre, a crise financeira de 2008 foi o último grande choque financeiro do capitalismo.

Desde então, entramos em um universo de forte expansão monetária e econômica no mundo, de forma que não experimentamos nenhuma grande crise desde então. Portanto, o fato de estarmos com os Treasuries nos maiores níveis desde 2007 mostra um humor arriscado por parte dos investidores globais.  

Para quem investe em bitcoin e criptomoedas, entender o que está acontecendo nos Treasuries é uma necessidade fundamental. Isso porque esses títulos são considerados os ativos mais seguros do mundo, e o seu rendimento funciona como o "custo de oportunidade" de absolutamente todos os outros investimentos.

Quando os Treasuries pagam pouco, o investidor global busca risco para conseguir retorno: ações, ativos emergentes, bitcoin, criptomoedas, entre outros. Por outro lado, quando os Treasuries pagam muito, o caminho inverso acontece e há uma fuga do capital de ativos mais arriscados.

A pergunta natural se torna: por que arriscar em ativos voláteis se posso ganhar mais de 5% ao ano em dólar e contar com a segurança do governo americano? 

Mas afinal, por que os Treasuries estão subindo tanto? Há três motivos principais que se combinam neste momento.

O primeiro é o retorno da inflação americana, alimentada pela alta no preço do petróleo em razão das tensões geopolíticas no Oriente Médio.

Quando a inflação resiste, o Fed (Federal Reserve) não tem espaço para cortar juros. Em outras palavras: o mercado parou de apostar em corte e passou a precificar a possibilidade de o Fed subir os juros novamente. 

Para ilustrar esse ponto, anteriormente especulava-se uma redução do juro americano no primeiro semestre de 2026. Por conta das tensões globais e alta do petróleo, agora o mercado entende que o juro americano não cairá até 2028 (!). Pior: investidores apostam em alta do juro ainda este ano.

O segundo motivo é a explosão da dívida pública americana. Para honrar seus compromissos e financiar seus déficits, o governo americano precisa emitir cada vez mais Treasuries.

E quando a oferta de títulos sobe, o mercado exige rendimentos maiores para absorver toda essa quantidade. É o velho mecanismo de oferta e demanda aplicado à maior economia do mundo.  

O terceiro motivo é o chamado "prêmio de risco". Os investidores institucionais estão exigindo uma compensação adicional para emprestar dinheiro ao governo americano por prazos longos, justamente porque enxergam mais incertezas no horizonte com base nos dois pontos anteriores.

Alguns analistas mais pessimistas alertam que os títulos podem ultrapassar 5,5% nos próximos meses, nível que não vemos desde 2004. 

Por falar em consequências, vamos ao que mais interessa ao investidor de bitcoin: como tudo isso impacta as criptomoedas.

Com o dólar fortalecido e Treasuries pagando mais, há atração de capital global para os EUA, valorizando o dólar e drenando liquidez de praticamente todos os outros ativos, incluindo o bitcoin.

Adicionalmente, há o aperto na renda variável, pois quando o "ativo livre de risco" paga mais de 5%, a tolerância do investidor institucional ao risco cai significativamente, e ações de tecnologia (que historicamente caminham junto com o bitcoin) são as primeiras a sofrer.

Por fim, temos a fuga dos ativos especulativos, já que em ambientes de juros altos e incertezas globais, o capital institucional simplesmente não tem incentivo para comprar bitcoin e criptomoedas de forma agressiva.  

Apesar de tudo isso, é importante fazer uma ressalva: o movimento dos Treasuries não é uma linha reta. Logo no dia seguinte ao pico de 5,2%, o yield de 30 anos recuou para 5,11% após uma leve queda do petróleo.

Isso mostra que estamos diante de um cenário de volatilidade em patamar bastante alto, e não de uma disparada unilateral. Cada notícia geopolítica e dado de inflação move essa curva de forma significativa. 

Enquanto o custo do dinheiro nos Estados Unidos não der sinais claros de queda, o fluxo institucional para os criptoativos continuará limitado. O "verão" das criptos, como mencionei recentemente, ainda parece ser uma história para 2027. 

Diante desse cenário, o investidor precisa entender que o bitcoin não vive em um vácuo, mas está inserido em um sistema financeiro global em que o dólar e os Treasuries continuam ditando as regras.

Acompanhar o movimento dos juros longos americanos é, hoje, tão importante quanto acompanhar o gráfico do próprio bitcoin.

Quando os Treasuries começarem a ceder de forma consistente, será o primeiro sinal real de que o ciclo macroeconômico está virando.

Até lá, gestão de risco, aportes graduais e preservação de capital continuam sendo as estratégias mais sensatas para enfrentar o que ainda promete ser um ano desafiador para os criptoativos. 

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