Biocombustíveis: aliados do meio ambiente, mas um desafio para motoristas
Quanto mais biodiesel no diesel, pior para o bolso e motor do veículo

O programa de biocombustíveis é bom para a atmosfera e para seus produtores. Mas, os motoristas reclamam -- e com razão. O governo levanta a bandeira da mobilidade sustentável para explicar a adição crescente de biocombustíveis aos derivados do petróleo. No entanto, o motorista nada tem a comemorar: quanto mais biodiesel no diesel, pior para o bolso e motor do veículo.
A lei Combustível do Futuro foi sancionada em 8 de outubro de 2024, “com o objetivo de promover a mobilidade sustentável de baixo carbono e consolidar o Brasil como líder da transição energética global”. Aplaudida de pé pelo lobby dos produtores de biodiesel, ela vai aumentar em bilhões de reais seu faturamento. Em contrapartida, pode trazer um prejuízo que fatalmente impactará no bolso do brasileiro. Além do biodiesel, a lei contempla também o aumento de etanol na gasolina.
O governo federal alega que o novo teor de álcool válido a partir de 1º de agosto -- de 27% para 30% -- foi testado e aprovado pelo Instituto Mauá de Tecnologia e que a lei do Combustível do Futuro permite um percentual de até 35%. Nada contra o álcool, é um excelente combustível, mas aumenta o consumo do motor e a conta do posto no fim do mês.
Limites e impactos para motores
Além disso, lei nenhuma derruba um obstáculo físico-químico: os testes com o percentual de 30% de etanol revelaram que este é o limite para os motores funcionarem sem problemas. Este é o limite para adição de álcool. Ou seja, quase impossível chegar aos 35% pretendidos pelo governo. E, no caso das motos, a luz amarela já se acendeu, pois surgiram problemas de funcionamento mesmo com o teor de 30%.
A Abraciclo, associação das fábricas de motos, se manifestou oficialmente contra esta adição do álcool.
Porém, mais complicado é o aumento de biodiesel para 15%, o B15, que afeta diretamente motoristas e transportadores. Nesse contexto, a opinião da CNT (Confederação Nacional do Transporte), que representa cerca de 200 mil transportadores, é fundamental, pois eles sofrem na prática com os problemas provocados pelo biodiesel.
A entidade reforça a necessidade do estabelecimento de critérios técnicos e da realização de testes antes de qualquer alteração no percentual de biodiesel.
"Atualmente, o Brasil já adota um índice superior à média internacional de 7%, o que tem gerado desafios operacionais para o transporte rodoviário". A CNT ainda alerta que "teores elevados podem causar formação de borra nos tanques, entupimento de bicos injetores, comprometimento da potência dos veículos e redução da vida útil das peças".
No português mais claro, a borra mencionada pela CNT faz parar caminhões na estrada, ônibus voltarem guinchados para as garagens, custo operacional aumentado com dobro da troca de filtros e óleos lubrificantes e desentupimento e retífica de motores. Além do perigo de um gerador (acionado por motor diesel) de hospital se recusar a funcionar na queda de energia elétrica durante uma cirurgia.
Silêncio das montadoras e alternativas energéticas
“A Anfavea, associação das montadoras, já protestou contra o B15 no passado, mas agora opta pelo silêncio -- por motivos políticos -- ignorando os problemas que o biodiesel causa nos motores de seus associados.”
Ao governo, não interessa os contratempos provocados pelo biocombustível, nem discutir soluções melhores para o problema, como o diesel verde (HVO), que possui molécula idêntica à do diesel derivado do petróleo, ou outras alternativas energéticas muito mais modernas, quando comparadas ao ultrapassado método de obtenção do biodiesel por transesterificação de grãos e resíduos animais.



