Caio Junqueira
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Caio Junqueira

Formado em Direito e Jornalismo, cobre política há 20 anos, 10 deles em Brasília cobrindo os 3 Poderes. Passou por Folha, Valor, Estadão e Crusoé

Análise: Brasil lidera feira mundial de petróleo, mas vê Guiana crescer

País vizinho ao Brasil atrai os olhos do mundo ao conseguir taxas recordes de crescimento de PIB do mundo

Bomba de petróleo em Midland, no Texas, EUA.  • 22/08/2018 REUTERS/Nick Oxford
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O nome do painel que a Guiana escolheu para fazer sua apresentação na Offshore Technology Conference (OTC) deixou claras as pretensões regionais e mundiais do país no setor: “A emergência da Guiana como uma potência energética regional e sua expansão no mercado global de petróleo”.

A OTC é a maior conferência mundial da indústria de petróleo e gás em águas profundas.

O país vizinho ao Brasil atrai os olhos do mundo ao conseguir taxas recordes de crescimento de PIB do mundo (em 2023 cresceu 44,1%) tendo como base a exploração de petróleo na Margem Equatorial, faixa litorânea entre o Rio Grande do Norte e o Oiapoque, no Amapá.

A exploração ocorre a poucos quilômetros de onde a Petrobras tenta aval do Ibama para furar um poço na bacia da Foz do Amazonas e avaliar se há petróleo ali — e se ele seria viável comercialmente.

O órgão ambiental brasileiro analisa há um ano um recurso da estatal contra a rejeição da licença.

Enquanto no Brasil há um certo divórcio do órgão ambiental com os interessados na exploração, a Guiana faz diferente.

O país escalou o presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Georgetown, da ExxonMobil Guiana, o Ministro dos Recursos Naturais e o CEO do Escritório de Investimentos da Guiana para uma conversa mediada por uma das principais empresas de relações governamentais da Guiana para vender petróleo do país para o mundo.

Os guianeses, sabendo dos bilhões de petrodólares que estão sob seu mar, exibiram no palco o alinhamento político que falta ao Brasil.

Em duas horas de exposição seguida de respostas a perguntas da plateia, a mensagem essencial foi a de que o país é uma democracia liberal amiga do setor privado e que busca fazer da exploração do petróleo uma virada na história do país sem deixar de lado a atenção ao meio ambiente.

O novo “Eldorado” da América do Sul, como um dos painelistas classificou o país, ocorre principalmente devido ao bloco Stabroek da Margem Equatorial guianense, cuja reserva é estimada em 11 bilhões de barris. Como comparação, o pré-sal brasileiro tem uma produção acumulada de 5,5 bilhões de barris em 15 anos.

A Guiana produz hoje cerca de 600 mil barris por dia dentro de um consórcio liderado pela ExxonMobil.

Em 2027, estima-se que chegará a 1,2 milhão de barris por dia. Ainda será bem menos que os 3,1 milhões de barris por dia produzidos pelo Brasil, sétimo maior produtor mundial. E que ajuda a entender o destaque do Brasil e da Petrobras na OTC.

Brasil com o maior estande

Neste ano, a estatal brasileira ganhou pela quinta vez o prêmio principal da OTC para empresas em razão da tecnologia utilizada para revitalizar o campo de Marlim na Bacia de Campos, que permitiu ampliar a produção reduzindo a emissão de gases de efeito estufa.

O painel “A Petrobras na Transição Energética: Produzindo Petróleo de Baixo Carbono e Preparando-se para o Futuro”, apresentado pelo presidente da estatal, Jean Paul Prates, e mediado pelo presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, Roberto Ardenghy, foi um dos mais disputados da feira. Executivos da feira participaram de pelo menos outros dez paineis também concorridos.

O estande do Brasil neste ano era o maior do pavilhão, com 500 m2, dois terços maior que o da OTC 2023.

O diretor de gestão corporativa da Agência Brasileira de Exportação e Investimentos (Apex), Floriano Pesaro, relatou à CNN que a estimativa é que o volume de negócios que as 53 empresas brasileiras promovam durante a semana deve passar de US $ 200 milhões.

“E a estimativa é de que o volume de negócios em um ano decorrentes da OTC chegue a US$ 500 milhões”, disse à CNN.

Na série de eventos paralelos que ocorrem por Houston, o Brasil chamou para si o jogo. Um deles foi na terça-feira a tarde luxuoso hotel The Houstonian Hotel.

A portas fechadas, 17 grandes empresas nacionais, como Andrade Gutierrez, Ecovix, Ocean Pact, OSX e Triunfo debateram a retomada da indústria naval brasileira com outras 14 grandes estrangeiras, como Samsung, BW Offshore e a chinesa CNOOC.

Na quarta pela manhã, a Câmara de Comércio Brasil-Texas promoveu um café da manhã com empresários e executivos brasileiros e estrangeiros também para debater investimentos no setor petroquímico no Brasil.

Brasil com dificuldades de ampliar produção

O problema é que enquanto países concorrentes do Brasil em petróleo têm ampliado sua produção, como a Guiana, o Brasil tem dificuldades. Justamente porque não consegue a licença para pesquisar a capacidade da Margem Equatorial brasileira.

No cenário mais conservador, a expectativa é de que seja possível extrair no que é considerado o novo pré-sal brasileiro pelo menos 1,2 milhão de barris por dia.

Apesar da premiação e dos negócios feitos pelos brasileiros nesses dias em Houston, a preocupação com o cenário futuro ficou clara.

Por um motivo simples: sem uma nova fronteira petrolífera de ponta aberta no Brasil — como a que se acredita estar na Margem Equatorial —, o Brasil em um prazo previsto de dez anos deixará de ser exportador de petróleo e precisará ser importador, com todo o impacto que isto terá na economia do país.

É o mesmo prazo estimado para, havendo petróleo viável, a bacia da Foz do Amazonas começar a produzir.

“Eu tenho deixado claro em vários fóruns: se o Brasil não refizer reservas em novas fronteiras, nós, ao final da próxima década, seremos importadores de petróleo”, resumiu Joelson Mendes, diretor de exploração e produção da Petrobras, em entrevista coletiva.

“O petróleo tem papel importante na balança comercial brasileira fora o que gera internamente. Então será um prejuízo muito grande para a economia do país se não explorarmos novas fronteiras.”

Há uma percepção dentre autoridades e empresários presentes ao evento ouvidos pela CNN que a ideia do Ibama é “decidir não decidir” e aguardar 2025, quando a proximidade da COP de Belém constrangeria o governo Lula a tomar uma decisão a favor da perfuração do poço FZA-M-59 na bacia da Foz do Amazonas.

A CNN tenta há três semanas falar com o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, sobre o assunto, mas por meio de sua assessoria a resposta tem sido de que ele não está com agenda disponível para falar.

A falta de uma operação política ampla que envolva todos os interessados dificulta a mudança de cenário.

Josiel Alcolumbre, presidente do Sebrae-Amapá, irmão e suplente do senador Davi Alcolumbre, disse a CNN que seu objetivo na feira era a difícil tarefa de convencer empresários a investirem no Amapá em razão de uma exploração de petróleo que não se sabe se e quando sairá.

A CNN esteve no estado em 2023 para gravar a série “Petróleo na Amazônia" e constatou como a mera expectativa da exploração mexeu com a economia local.

Josiel Alcolumbre, porém, disse que esse sentimento arrefeceu.

“Estou aqui convidando empresários para ir a um road show que estamos organizando no Amapá. São conversas com o governador, prefeitos e deputados para que eles compreendam que há segurança jurídica e institucional para investimentos no estado quando começar a exploração”, disse.

Ele admite um certo desânimo no estado com a demora do Ibama em decidir. “Ano passado a gente veio com uma delegação maior mas esse ano parece que esfriou”, disse.

É a diferença do Brasil para a Guiana. Enquanto o promissor vizinho mostrou no painel da OTC uma união de figuras de peso da classe política do país em torno da causa, no Brasil os seus similares andam cada um para um lado.

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, parece mais impactado pelo mercado de gás natural do que o de petróleo; a ministra de Meio Ambiente, Marina Silva, é contra a exploração na Margem Equatorial e o responsável pela política industrial, o vice-presidente e ministro Geraldo Alckmin, anda focado na retomada da indústria automotiva cujos carros, em dez anos, poderão vir a serem abastecidos com petróleo guianense para rodar o país.

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