Caio Junqueira
Blog
Caio Junqueira

Formado em Direito e Jornalismo, cobre política há 23 anos, 10 deles em Brasília cobrindo os Três Poderes. Passou por Folha, Valor, Estadão e Crusoé

Análise: debate refletiu campanha e não deve impactar pesquisas

Encontro entre presidenciáveis reforçou o eleitor lulista a votar em Lula, o eleitor bolsonarista a votar em Flávio Bolsonaro e os que se abstiveram ou votaram em branco ou nulo a repetir isso no próximo domingo (25)

O debate entre Lula e Flávio Bolsonaro na Band foi um espelho da campanha: poucas propostas e muitos ataques. Se a premissa é essa, a consequência também é a mesma: o que o público assistiu na noite deste domingo (18) não deve ter impacto nas pesquisas, que, ao menos até agora, mantêm um leve favoritismo para o senador do PL no próximo domingo.

Flávio claramente se preparou mais e foi mais treinado para o debate na TV. Isso foi visto desde a movimentação frequente no palco, tanto por trás de Lula, para aparecer enquanto o presidente falava, como quando ficou quase encostado no petista, em uma clara estratégia para tentar desestabilizar o oponente. Também aproveitava qualquer oportunidade para pedir direito de resposta, expediente pouco utilizado por Lula.

A estratégia de Flávio de usar logo de cara temas sensíveis a Lula também foi importante para ampliar a tensão do presidente, em especial ao tratar das denúncias envolvendo seu filho, Lulinha. Também, quando pôde, explorou a maior preocupação do brasileiro hoje, a violência urbana, e tratou de vender a ideia do Ministério da Prosperidade, uma das principais apostas da campanha.

O senador do PL, porém, fugiu de perguntas incômodas, como uma votação contrária à extensão da licença-maternidade quando era deputado estadual no Rio de Janeiro e o caso em que defendeu um policial que matou uma menina.

Também abusou do deboche, o que, a depender de quem assiste, pode passar a ideia de arrogância, como quando disse que o nariz de Lula estava crescendo ou que o oponente podia se aproximar fisicamente porque ele estava sem sua carteira.

Lula, por sua vez, parece ter apostado na experiência em embates presidenciais do tipo, presentes em sua vida desde 1989. Mas o problema é que os debates daquela época não são como os de hoje, em que a gestão do tempo é crucial. E Lula não geriu bem seu tempo.

Logo no primeiro bloco, terminou uma resposta às perguntas dos jornalistas deixando 25 segundos em aberto. Errou com frequência a câmera para a qual deveria se dirigir e também deu muito as costas para a câmera. Também cometeu erros de conteúdo, como a menção a "malandro carioca" e a afirmação de que, se eleito para o quarto mandato, o "Brasil vai acabar".

O que não significa que o presidente não tenha tido bons momentos. E eles aconteceram justamente quando suas respostas pareceram não ter sido treinadas, como quando respondeu a Flávio que quer que todos os presidiários do país votem nele, inclusive o pai dele, Jair Bolsonaro, e ao dizer que Vorcaro virou banqueiro sob Jair Bolsonaro e prisioneiro sob seu governo.

A exploração do tema da pandemia sob Bolsonaro também foi acertada, talvez o ponto alto de Lula, tanto que obrigou Flávio a fazer um mea-culpa sobre a gestão do pai em relação à Covid-19. E confrontou-o com a mudança de posição na PEC 6x1. Quando pôde, defendeu feitos sociais das gestões petistas. Mas, para quem precisava virar o jogo, era preciso mais de Lula.

Os marqueteiros do presidente parecem ter percebido isso, tanto que Lula seguiu para o último bloco com a proposta de abertura de sigilos para Flávio, que, sem estar treinado para esse questionamento, não soube responder de imediato. Foi responder de fato só na entrevista após o término do debate.

Espremendo bem o debate, é possível concluir que ele refletiu uma campanha de baixo nível, baseada em questionamentos recíprocos sobre corrupção e temas morais para forçar uma guerra de rejeições que dá pouca atenção às propostas.

Reforçou o eleitor lulista a votar em Lula, o eleitor bolsonarista a votar em Flávio Bolsonaro e os que se abstiveram ou votaram em branco ou nulo a repetir isso no próximo domingo.

Logo, não deve interferir nas pesquisas, o que, hoje, é melhor para Flávio do que para Lula. A imagem das mulheres que estavam no entorno de ambos nas entrevistas ao final do debate pareceu refletir isso. Enquanto a coordenadora do programa econômico de Flávio, Daniella Marques, sorria, a primeira-dama Janja da Silva estava de cara fechada.