Caio Junqueira
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Caio Junqueira

Formado em Direito e Jornalismo, cobre política há 23 anos, 10 deles em Brasília cobrindo os Três Poderes. Passou por Folha, Valor, Estadão e Crusoé

Instituto mais próximo do 1º turno vê Flávio favorito, mas sem "já ganhou"

Para Gabriel Pazos, presidente da Gerp Mercadologia, principal componente da eleição é a economia; para ele, alto custo de vida tem feito eleitores optarem por Flávio em vez de Lula

Gabriel Pazos, presidente da Gerp Mercadologia, instituto de pesquisa foi o que mais se aproximou do resultado do primeiro turno das eleições presidenciais deste ano, disse em entrevista à CNN ver o candidato Flávio Bolsonaro (PL) como favorito no próximo domingo, mas afirmou que ainda não é possível dizer que ele "já ganhou" a disputa contra o presidente Lula.

Pazos afirmou que o principal componente da eleição é a economia e que o alto custo de vida tem feito as pessoas optarem por Flávio em vez de Lula.

Ele aponta a violência como um segundo ponto relevante no debate. Pazos avalia ainda que o que deve definir a eleição no domingo é o voto do eleitor que optou pelos candidatos derrotados no primeiro turno.

O CEO da Gerp não aposta na conversão de votos de Lula em votos para Flávio, nem vice-versa, e tampouco considera que a taxa de abstenção será algo relevante.

Questionado sobre por que acredita que seu levantamento foi o que mais se aproximou do resultado final no primeiro turno, ele diz que faz pesquisas por telefone e que isso garante acesso a todas as faixas da população, “da comunidade ao condomínio de luxo”. Na véspera do primeiro turno, seu levantamento cravou 46% para Flávio e 44% para Lula. O resultado nas urnas foi de 47% a 45%.

CNN: Qual é o seu cenário para o segundo turno?

Pazos: O placar está muito apertado. No nosso levantamento, está 53% a 47% para Flávio. Quando se fala nessa diferença de seis pontos e se acha que isso é vantagem, na verdade, não é. Flávio está com três pontos de vantagem, e Lula está a três pontos da vitória. A vantagem de Flávio, portanto, é de 3%. Então, vai ser uma disputa apertada.

CNN: Flávio é favorito?

Pazos: Se você pegar todas as pesquisas, as 14 dão Flávio na frente. Ele automaticamente se torna o favorito, mas isso não significa que já ganhou.

Ele é o favorito, mas não é “pule de dez” que vai vencer.

CNN: Por que Flávio chega bem posicionado às vésperas do segundo turno?

Pazos: Existe uma onda de conservadorismo no país. O presidente Lula está com a imagem cansada, e a economia está muito ruim. Você corre de um lado para o outro, mas a economia acaba pesando muito na eleição.

Violência é importante, saúde é importante, mas, quando se sente o impacto na barriga, é diferente. Não tem como fugir do supermercado, do dentista e da escola do seu filho.

Da violência, você consegue escapar: em vez de passar por aqui, passa por ali. A saúde você posterga, adia. Mas a economia, não. Eu acho que esse é o principal tema, junto com a violência. Toda eleição tem um aspecto econômico e, desta vez, a situação econômica está muito apertada. As coisas aumentam semanalmente, e seu salário, não.

CNN: Lula pode virar?

Pazos: Não vejo nada no cenário que possa dar vantagem a um ou a outro. Não vejo nada que possa significar uma abertura, nem de um lado nem de outro. Mas eleição se ganha na rua, não com declarações de apoio. Os dois estão na rua e estão com vontade de disputar.

CNN: O que Lula tem a seu favor nesta reta final?

Pazos: É evidente que Lula tem a máquina na mão e pode tirar algo disso ainda, mas a população aceitou todas as medidas do governo. E isso não teve impacto suficiente para fazê-lo virar. Na minha conta, o impacto do pacote de bondades foi de 2%.

CNN: Há eleitores ainda a serem conquistados?

Pazos: Como a disputa está muito polarizada, cada um está disputando dentro da sua bolha. Nenhum dos dois está conseguindo convencer o bloquinho do meio, que são os indecisos. Inicialmente, os indecisos estavam indicando que eram eleitores dos candidatos que perderam o primeiro turno. A maioria estava indicando Flávio, e hoje está dividida.

Eleitores de Augusto Cury e Renan Santos estão bem divididos entre Flávio e Lula. Já os eleitores de Romeu Zema e Ronaldo Caiado estão mais inclinados a Flávio. A tendência ligeiramente favorável a Flávio acaba beneficiando-o pelo fato de ele ser de direita. Mas existe uma gama de indecisos que só decide na última hora.

Na verdade, a eleição é uma disputa de convencimento e, até agora, nenhum dos dois convenceu o bloco do meio. Inicialmente, esse bloco era 75% a 25% para Flávio, mas isso não está se confirmando na reta final. São esses eleitores que devem decidir.

CNN: A taxa de abstenção deve cair?

Pazos: A abstenção vai ser a mesma coisa do primeiro turno.

CNN: E há chance de virar voto? Quem votou em um no primeiro turno pode votar no outro no segundo turno?

Pazos: Não faz muito sentido quem vota no Lula votar no Flávio, e vice-versa. A eleição está polarizada.

CNN: Por que vocês acertaram o primeiro turno?

Pazos: A Gerp tem 43 anos. Nosso forte não é eleição; é pesquisa de mercado. Eleição a gente faz mais como cachaça mesmo. Nossa metodologia é bem raiz, bem baseada na estatística. Todo mundo cobra modernização da pesquisa, mas não é preciso modernizar a estatística: ela é uma ciência.

Vejo outros institutos que fazem pesquisas por redes sociais ou que fazem uma série de ponderações sobre os resultados levantados. Mas o princípio básico da pesquisa é que toda pessoa precisa ter uma chance de ser alcançada para responder. Quando se faz a pesquisa apenas por redes sociais, elimina-se muita gente.

Nós usamos uma central telefônica. As ligações são disparadas pelo sistema e, quando alguém atende, a chamada é encaminhada para um entrevistador. São entrevistas pessoais, mas não presenciais. Isso permite alcançar potencialmente pessoas de todos os tipos. Por telefone, você entra em locais de difícil acesso, como comunidades e condomínios de luxo. E as pessoas respondem com mais tranquilidade.

Outra coisa importante é o sistema de cotas. Usamos as cotas da PNAD e do TSE. Tenho que encontrar um perfil e vou até o fim. No final da pesquisa, você faz os ajustes da amostra. Isso tudo nos dá segurança para chegar ao resultado.

CNN: Profissionais têm reclamado que as pesquisas presenciais estão sendo difíceis de fazer.

Pazos: Na rua, o respondente fica olhando, com medo. Nas ruas das grandes capitais, ele tem medo de ser assaltado. Quando se faz a pesquisa por telefone, a pessoa é abordada em sua zona de conforto. Ela responde com segurança, não está com medo de nada, e a resposta fica mais espontânea.

CNN: Os trackings invadiram as campanhas. Eles são confiáveis?

Pazos: Sim. Eu tenho um tracking com três clientes. A diferença é que você faz a pesquisa todos os dias e vai cobrindo todos os períodos do dia.
Trabalho com 800 entrevistas por dia e com média móvel de três dias fazendo a média deles todos os dias. Quando entra o quarto dia, soma-se esse novo dia e elimina-se o primeiro. Então, quando você faz uma pesquisa bem distribuída, sua chance de chegar perto do resultado é maior.