Caio Junqueira
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Caio Junqueira

Formado em Direito e Jornalismo, cobre política há 23 anos, 10 deles em Brasília cobrindo os Três Poderes. Passou por Folha, Valor, Estadão e Crusoé

Os cinco pontos-chave da vitória do governo no IR

Proposta foi encaminhada pelo governo federal ao Congresso e foi defendida ainda na campanha eleitoral de Lula

Deputados durante sessão deliberativa no plenário da Câmara  • Bruno Spada/Câmara dos Deputados
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A Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade nesta quarta-feira (1º) o projeto de lei que prevê isenção de Imposto de Renda (IR) para pessoas físicas com renda mensal de até R$ 5 mil e desconto para os que ganham até R$ 7.350 mensais.

A proposta foi encaminhada pelo governo federal ao Congresso e foi defendida ainda na campanha eleitoral pelo então candidato Luiz Inácio Lula da Silva.

Leia a seguir os principais pontos da vitória do governo Lula na Câmara sobre o projeto de isenção do IR.

1) Proposta popular

O projeto que amplia a faixa de isenção do Imposto de Renda tem questionamentos técnicos por tributaristas, mas opor-se a ele é muito arriscado politicamente.

O discurso governista de justiça tributária é fácil de ser vendido e compreendido — assim como o de que o Congresso defende os ricos e o governo, os pobres —, já testado no embate do IOF.

Parte da oposição até tentou resistir, mas prevaleceu o cálculo de que se posicionar contra o PL seria mais um erro político e ampliaria a série de equívocos que a oposição vem cometendo nas últimas semanas — da operação pró-tarifaço de Eduardo Bolsonaro na Casa Branca até o apoio à PEC da Blindagem.

2) Recuperação da popularidade de Lula

As mais recentes pesquisas apontam que o presidente Lula vem recuperando a popularidade perdida, diante da redução da inflação dos alimentos e da adoção de um discurso de defesa da soberania nacional frente ao tarifaço de Donald Trump e à aplicação de sanções dos Estados Unidos contra autoridades brasileiras.

Deputados também vão às urnas em 2026 e se posicionar contra uma proposta considerada bandeira eleitoral de um candidato com chances reais de vencer a eleição presidencial pode gerar dificuldades políticas e eleitorais futuras.

3) Arthur Lira

O gabinete do relator do projeto do IR, Arthur Lira, virou o centro nervoso de Brasília ao longo da quinta-feira. O governo empoderou o deputado nas negociações com as bancadas, e ele conseguiu, ao longo do dia, desmobilizar a articulação de lideranças mais oposicionistas do Centrão — em especial do União Brasil e do PP — para desidratar o projeto.

Em troca, o governo reforçou o apoio à pretensão de Lira de se eleger senador por Alagoas em 2026, sem que o campo lulista no estado, liderado por seu rival Renan Calheiros, atrapalhe seu objetivo.

4) Câmara acuada

O timing da votação coincidiu com o momento de maior desgaste político de toda a atual legislatura. A Câmara havia aprovado, duas semanas antes, a PEC da Blindagem, que levou milhares às ruas em protesto dias depois e acabou enterrada pelo Senado, expondo e constrangendo deputados.

Também aprovou um requerimento de urgência para votar uma anistia a réus do 8 de janeiro — projeto ao qual a maioria da população é contrária. Ir contra a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda só aumentaria o desgaste, e era preciso levar à pauta uma agenda popular. A próxima é a PEC da Segurança Pública.

5) Governo entrou em campo

O governo trabalhou pela aprovação. No dia da votação, Lula chamou o líder do PP, Dr. Luizinho (RJ), para uma conversa pessoal no Alvorada. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, enviou à Câmara o secretário do Tesouro, Robson Barreirinhas, e o de Reformas Econômicas, Marcos Pinto, para participarem diretamente das negociações.

A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, acompanhou a votação in loco.