Ciro Dias Reis
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Ciro Dias Reis

Especialista em comunicação e temas internacionais. Fundador e CEO da Imagem Corporativa, é board member da International Communications Consultancy Organization e membro do Copenhagen Institute for Future Studies. Foi também global chairman da rede global PROI Worldwide

A insustentável leveza do tema da remilitarização divide o Japão

Pesquisa do instituto Yomiuri Shimbun revelou que 80% dos japoneses não acham necessário mudar o primeiro parágrafo do artigo 9 da Constituição

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No último domingo (3) fui abordado por uma simpática senhora de cabelos brancos em um parque de Kyoto, aqui no Japão. Ela era uma das mais ativas participantes do protesto antiguerra que estava ocorrendo no local, em pleno Dia da Constituição. A data é celebrada todo dia 3 de maio e marca a entrada em vigor da atual Carta do país, de 1947, que estabeleceu claramente os princípios de pacifismo, direitos humanos e democracia naquele imediato pós-guerra.

Ela me perguntou de que país eu era e ao responder Brasil ela quis saber como andava nossa economia e nossa política. Entregou-me um panfleto que explicava toda a programação daquele dia de protesto. Boa parte dos participantes levava cartazes e entre eles estavam alguns em inglês com as expressões “No war” e “No kill”, às vezes com a imagem do presidente Donald Trump ao lado.

Eu disse chamar minha atenção o fato de que a grande maioria dos que estavam ali reunidos eram pessoas de idade mais avançada, às quais se juntava um limitado número de jovens. Ela se mostrou desapontada com esse fato e comentou: “Os jovens agora se interessam pouco por política e pelo que está acontecendo. Eles pensam mais em si mesmos ou em um
emprego”.

A movimentação a que eu assistia tinha um contexto mais amplo. É que a primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi , que mantém boas relações com o presidente americano, defende a rediscussão de pontos da Constituição que restrigem o papel das forças armadas (SDF) à autodefesa. Ela mira especialmente o artigo 9 do texto, cujo primeiro parágrafo veta a
participação do país em conflitos armados. O segundo avança no detalhamento e explicita: "Para realizar o objetivo do parágrafo anterior, forças terrestres, marítimas e aéreas, bem como outro potencial de guerra, nunca serão mantidos. O direito de beligerância do Estado não será reconhecido”.

Pesquisa do instituto Yomiuri Shimbun divulgada no próprio domingo aponta que 80% dos japoneses não acham necessário mudar o primeiro parágrafo mas 47% acham que o segundo deve ser rediscutido.

Na realidade, a mandatária recentemente promoveu uma mudança histórica na política de defesa ao flexibilizar restrições vigentes por décadas à exportação de armas fabricadas em território nacional. Agora o Japão poderá vender equipamento letal em cinco categorias (resgate, transporte, alerta, vigilância e retirada de minas) para os dezessete países com quem mantém acordos de defesa, entre os quais estão Estados Unidos e Inglaterra. Antes tais exportações eram permitidas apenas para funções não agressivas mas agora essa limitação não existe mais.

Takaishi atribui a medida às mudanças no cenário geopolítico e à deterioração da segurança regional em um ambiente de tensões com a China, Rússia e Coreia do Norte. Esse racional também está por trás da proposição do governo destinada a aumentar os gastos em defesa para 2% do PIB. No mês passado o país participou de forma ativa de exercícios militares com os Estados Unidos e as Filipinas. E pretende continuar ampliando a cooperação militar junto a Washington e outros parceiros da região do Indo-Pacífico.

Pequim não vê bom bons olhos os novos ventos que sopram desde Tóquio. Razões históricas contribuem para isso. Na primeira metade do século vinte o Japão invadiu e dominou a China adotando práticas opressivas e violentas no trato com a população subjugada. As cicatrizes daquele momento sombrio ainda permanecem à mostra.

Além disso as relações entre os dois países têm sido arranhadas por conta das ilhas Senkaku, que embora desabitadas são hoje disputadas pelos dois países. Mais: o Japão se mostra inquieto pela permanente movimentação de navios militares chineses perto de seu mar territorial.

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