Ciro Dias Reis
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Ciro Dias Reis

Especialista em comunicação e temas internacionais. Fundador e CEO da Imagem Corporativa, é board member da International Communications Consultancy Organization e membro do Copenhagen Institute for Future Studies. Foi também global chairman da rede global PROI Worldwide

Análise: Depois da guerra no Irã nada será como antes

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Algumas horas depois do anúncio de cessar-fogo feito por Estados Unidos e Irã um grupo de profissionais de vários países com interesse em geopolítica e do qual faço parte reuniu-se virtualmente, tendo como pano de fundo o cenário que se apresenta a partir da interrupção do conflito. 

A percepção predominante é de que existem mais perguntas do que respostas. De qualquer forma, trata-se de iniciar uma avaliação dos enormes impactos econômicos, políticos e sociais, além de mirar os desdobramentos da jornada das últimas semanas no Oriente Médio.

O que se pode dizer com segurança é que uma página foi virada para sempre, em diferentes dimensões. 

O petróleo chegou a ultrapassar US$ 110 em março caiu 15% logo após a divulgação do cessar fogo e a sinalização de reabertura do Estreito de Ormuz (se efetivamente confirmada pelo Irã depois da continuação dos ataques de Israel no Líbano).

Ao mesmo tempo, as bolsas de valores apontaram para cima e diferentes lideranças políticas mundo afora sinalizaram alívio. Mas tudo indica que não teremos tão cedo a relativa normalidade do mercado global que em fevereiro negociava o barril entre US$ 60 e US$ 70 e permitia plena carga a navegação, logística e comércio. 

Afinal, não se trata agora de simplesmente religar o planeta na tomada. Na verdade, dezenas de campos de petróleo foram atacados no Oriente Médio, o mesmo acontecendo com refinarias e áreas de armazenamento de combustíveis. E não apenas no Irã: também foram alvos Arábia Saudita, Bahrain, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Omã, Kuwait e Jordania.

Ainda não está claro como será o processo de retomada das cadeias de suprimentos para algumas peças e componentes específicos de instalações do sistema petróleo danificadas pelos bombardeios. Será necessária a reconstrução de estruturas físicas, inspeção (e eventual substituição) de equipamentos, além da confirmação de que processamentos industriais podem ser reativados em segurança.

Estima-se que pelo menos 10% da entrega mundial de petróleo tenha sido foi prejudicada e a retomada do tráfego em Ormuz exigirá mais do que a simples autorização para a movimentação de navios. Será preciso reagrupar funcionários e embarcações dispersados pela guerra.

Os operadores têm questionamentos: "O setor de transporte marítimo aguarda detalhes técnicos dos Estados Unidos e do Irã sobre como transitar pelo Estreito de Ormuz com segurança", declarou em nota a Bimco, entidade que reúne centenas de operadores do transporte marítimo em todos os continentes.

E há outras perguntas pairando no ar: o preço dos seguros, que disparou com o início da guerra voltará aos patamares anteriores ou se manterá nos níveis de março? Se depois das duas semanas de trégua não se chegar a um acordo final entre as partes o impasse pode trazer de volta os bombardeios? E a entrega de fertilizantes, fortemente afetada durante o conflito, será agilizada em linha com o timing dos plantios dos próximos meses nas diferentes geografias?  

Mais: num cenário marcado por incertezas, como administrar os preços dos combustíveis em mais de 100 países onde eles foram remarcados? E o que fazer com as medidas drásticas que foram adotadas por alguns governos, como decretação de emergências energéticas, racionamentos de gasolina, diesel e querosene de aviação, além de redução das jornadas de trabalho?

Analistas e alguns bancos estimam que os preços da energia devem ficar abaixo dos níveis das semanas de guerra, mas acima do patamar anterior ao conflito. O valor do barril, segundo essa visão, poderia diminuir gradativamente até fechar o ano em US$ 80, sempre dependendo dos níveis de instabilidade geopolítica e volatilidade.

Outro sinal amarelo diz respeito aos custos dos produtos agrícolas. Seu avanço deve alimentar a inflação e estender seus efeitos até 2027, em movimento oposto ao de uma atividade econômica em provável (ainda que limitada) desaceleração em nível global.

Se confirmado o fim do conflito após as duas semanas de cessar fogo no Oriente Médio será a hora de várias tarefas simultâneas. Uma delas é a reconstrução de áreas atingidas e a realocação daqueles que perderam seus lares. Outra é a reconexão de elos econômicos desfeitos. E tão importante como as duas anteriores: a penosa caminhada em direção a um novo cultivo de laços de confiança. 

Ao considerar o conjunto de acontecimentos e circunstâncias das últimas semanas o chefe da IEA (Agência Internacional de Energia) Fatih Birol é taxativo. Ele considera a crise do petróleo e do gás desencadeada pelo bloqueio do Estreito de Ormuz como “mais grave do que as de 1973, 1979 e 2022 juntas”.

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