“Doutrina Donroe” mantém o tom sem deixar de lado o pragmatismo
Cardápio da vez tem como aperitivo um constrangimento diplomático, passa para um encontro coletivo e termina com um diálogo a dois

Depois da operação que removeu Nicolás Maduro do poder na Venezuela e das movimentações destinadas a isolar Cuba, a “Doutrina Donroe” entra em campo novamente.
Corolário Trump à Doutrina Monroe estabelecido pela Estratégia de Segurança Nacional divulgada por Washington no final de 2025 para reafirmar a liderança dos Estados Unidos nas Américas, o cardápio da vez tem como aperitivo um constrangimento diplomático, passa para um encontro coletivo e termina com um diálogo a dois.
O constrangimento diplomático diz respeito a imposição, pelo governo americano, de restrições de visto a três autoridades chilenas diretamente relacionadas a um projeto de cabo digital submarino proposto por empresas chinesas a Santiago.
A medida é vista como mais uma sinalização a outros países da América Latina de que a região deve se distanciar da China e ficar ao lado dos Estados Unidos nas questões estratégicas e de comércio.
O segundo item do cardápio, o encontro coletivo, é agenda do dia 7 de março. Nessa data Donald Trump vai recepcionar em Miami chefes de estado latino-americanos situados à direita do espectro político, como Javier Milei, da Argentina; José Antonio Kast, presidente eleito do Chile; o polêmico Nayib Bukele de El Salvador, além dos líderes de Paraguai Bolívia, El Salvador, Equador e Honduras.
Essa cúpula conservadora em Miami terá como foco a discussão de caminhos para frear a presença da China na América Latina, região onde Pequim tem apostado alto e de forma diversificada (infraestrutura; tecnologia; energia limpa; automóveis; minerais críticos).
Nada aleatórias, as movimentações do país asiático na área se situam, em grande medida, debaixo do guarda-chuva do Road and Belt Initiative (RBI), mais popularmente chamado de Nova Rota da Seda.
Trata-se de programa estratégico da gestão Xi Jinping destinado a abrir ou ampliar perspectivas de negócios para os chineses e, de quebra, fazer avançar sua influência geopolítica (a China espera que seus investimentos estimulem governos a apoiá-la em fóruns multilaterais, inclusive a ONU).
Desde 2013, a Road and Belt Initiative envolveu mais de US$ 1,3 trilhão em recursos e contratos chineses em 150 países (22 dos quais na América Latina e Caribe).
Finalmente, chegamos ao diálogo a dois mencionado como parte do cardápio da vez no início deste texto. Ele se refere ao encontro previsto para a segunda quinzena de março entre Donald Trump e o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nome que se posiciona, evidentemente, à esquerda do espectro político.
As diversas trocas de farpas entre os dois mandatários durante parte de 2025 deram lugar, mais recentemente, a visões realistas e acenos pacificadores de lado a lado.
Brasília sabe que não pode bater de frente com a maior economia do mundo e mercado chave para suas exportações.
Washington, por sua vez, reconhece que o Brasil é maior economia da América Latina e um dos poucos países onde os Estados Unidos obtêm sucessivos superávits comerciais, além de território com boas reservas de terras raras (matéria prima essencial para produção de itens de alta tecnologia, de celulares a jatos militares).
Detalhe: a China é o player mais avançado na exploração e processamento de terras raras, o que dá a Pequim um trunfo especial na gestão desse ativo estratégico e na sua disponibilização no mercado global.
Em outras palavras, Trump e Lula sabem que é melhor buscar proteger os interesses das nações que representam do que ficar debatendo publicamente visões de mundo que jamais se alinharão.
A palavra de ordem parece ser pragmatismo, comportamento esse que os chineses conhecem bem. Como dizia seu líder Deng Xiaoping, que nos anos 1980 abriu o país para o mundo: “Não importa a cor do gato, desde que ele coma o rato”.



