Palavras e narrativas fazem diferença na busca por resultados
No World Economic Forum, em Davos, na Suíça, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, apresentou sua receita para o mundo seguir em frente na busca de novas soluções

É difícil não lembrar de Martin Luther King como o personagem que imortalizou a expressão “I have a dream”, marca registrada de sua luta por uma sociedade igualitária. Também parece improvável que sejam apagados dos anais da política bordões como “Yes, we can”, usado na primeira campanha a presidente de Barack Obama, e “50 anos em 5” da gestão de Juscelino Kubitschek nos otimistas anos 1950.
Talvez menos icônicas, ainda assim não serão dissipadas facilmente as palavras vigorosas selecionadas com apuro pelo primeiro-ministro canadense, Mark Carney, em seu discurso de janeiro no World Economic Forum (Fórum Econômico Mundial) em Davos, na Suíça.
Em uma apresentação serena que encadeou argumentos sólidos, durou 16 minutos e foi entusiasticamente aplaudida, ele ofereceu um diagnóstico preciso dos turbulentos tempos atuais de multilateralismo ferido pelas políticas do governo Donald Trump. E apresentou sua receita para o mundo seguir em frente na busca de novas soluções.
“A velha ordem não vai voltar. Não devemos lamentá-la. Nostalgia não é uma estratégia”, assinalou.
“A questão para as potências médias, como o Canadá, não é se devemos nos adaptar a esta nova realidade. Devemos. A questão é se nos adaptamos simplesmente construindo muros mais altos – ou se podemos fazer algo mais ambicioso”, disse também.
E ainda: “As potências médias devem agir juntas porque, se você não está à mesa, você está no cardápio. As grandes potências podem se dar ao luxo de agir sozinhas. Elas têm o tamanho do mercado, a capacidade militar, a influência para ditar as regras. As potências médias, não.”
A abordagem de Carney foi lição objetiva sobre como um líder pode (e deve) criar pontes efetivas junto a seus públicos e fazê-los entender plenamente um raciocínio, uma lógica e um direcionamento.
Sem rodeios, meias palavras, arroubos ou imprecisões.
Refiro-me aqui a adoção de uma comunicação cirúrgica, clara e assertiva, distante portanto dos discursos falsamente inflamados, recheados de chavões ou frases de efeito de eficácia duvidosa.
O exercício permanente daquele atributo por uma liderança (na política, no ambiente corporativo ou em qualquer outra organização) permite que as pessoas passem a percebê-lo como padrão permanente de quem o adota. E isso abre espaço para que as mensagens transmitidas sejam mais facilmente assimiladas e endossadas.
Aspecto nem sempre lembrado de uma liderança bem-sucedida é que ela não precisa dizer o tempo todo aos liderados o que eles devem fazer. Em vez disso, graças ao padrão já mencionado, as pessoas podem antecipar o que se espera delas.
É o que ocorre com um time de futebol altamente eficiente e competitivo: a estratégia e o padrão de jogo criados pelo técnico permitem aos jogadores anteverem os movimentos que colegas farão em campo antes do lançamento da bola, ampliando assim as chances de gol.
Bons resultados não acontecem por acaso ou intuição. Arnold Palmer, um dos mais consagrados campeões da história do golfe mundial, costumava dizer, ironicamente: “Quanto mais eu treino, mais sorte eu tenho”.



