
A África tem sido definida de forma praticamente unânime como a próxima grande fronteira econômica, mas ainda frequenta timidamente o noticiário nessa condição. Atualmente responde por apenas 3% do Produto Interno Bruto do planeta (América Latina, 7%) mas deve ganhar pontos no ranking graças a uma série de atributos. Estes vão de uma população extremamente jovem até os minérios que repousam em seu vasto subsolo, passando ainda por razoáveis reservas de petróleo e grandes recursos aportados nos últimos anos em transporte e logística.
O continente deve crescer 4% em 2026 pelos cálculos do Banco Mundial, que prevê números mais modestos para a economia global e a América Latina: 2,3% e de 2,5% no período, respectivamente.
Conversei na semana passada com colegas de diferentes países (Nigéria, África do Sul, Etiópia, Quênia, Zâmbia), para tentar entender melhor, a partir de sua ótica como atores locais, as perspectivas do continente. Meu objetivo era ampliar a visão para além das otimistas estatísticas e análises técnicas elaboradas sobre a região por instituições financeiras e organismos multilaterais.
Nas conversas pude, sim, atestar um certo nível de otimismo em relação ao avanço da urbanização e a criação de nichos modernizantes em vários países. Da mesma maneira, é visto como fator competitivo o potencial de uma população com idade média de 20 anos apta a se transformar em força de trabalho. Melhorias já implantadas ou iniciativas em andamento no ainda carente setor de infraestrutura (portos, rodovias, aeroportos, projetos de energia) também são interpretados como variáveis positivas, assim como os resultados crescentes registrados nas áreas de manufatura, bens de consumo, agroindústria, tecnologia e telecomunicações.
A África tem se mostrado promissora em várias dimensões e avança na direção de uma integração mais ampla à economia global. Esse caminho, evidentemente, tem muitos desafios. São conhecidas suas carências sociais e educacionais, além das sensibilidades no campo político (governos militares e movimentos guerrilheiros têm presença marcante em certas áreas). Mais: nesse continente de 54 países e um bilhão de habitantes, vivem populações de culturas diversas e são falados centenas de idiomas e dialetos, evidente elemento dificultador. Por último, mas não menos importante, vários governos da região já convivem com preocupantes níveis de endividamento.
Portanto, se existe otimismo há também focos de inquietações. Nas conversas com colegas, além do desejo de ver construído um ecossistema político mais sólido e uniforme no continente, ouvi dúvidas em relação ao papel único desempenhado pela China nos investimentos e nas relações com governantes africanos. Vários deles contraíram no país asiático grande volume de empréstimos por vezes marcados por amortizações penosas, e viram o dinheiro chegar junto com grandes contingentes de operários chineses para obras de infraestrutura, além de equipamentos e soluções de mobilidade urbana de mesma origem. Ou seja, uma espécie de combo com pouca margem de negociação.
Sinal mais evidente do avanço econômico (e, consequentemente, geopolítico) de Pequim sobre o continente é o protagonismo dos carros elétricos chineses: eles já detêm 15% dos mercados de África do Sul e Nigéria, além de 30% na Etiópia, país que em 2024 foi o primeiro do mundo a banir a importação de modelos a gasolina e diesel.
Independente das preocupações, parece haver consenso no viés de alta da confiança em relação ao futuro e na robustez dos números e projeções de especialistas.
Até 2050, a África representará 25% da população mundial, com uma força de trabalho superior à da China ou da Índia, fato que soa como música aos ouvidos de investidores de uma forma geral. Na metade do século, 80% do seu crescimento populacional estará concentrado nas cidades, com mais de 500 milhões de africanos vivendo em áreas urbanas.
A consultoria McKinsey engrossa o coro otimista internacional sobre o continente. Uma de suas análises diz: “As muitas grandes empresas africanas têm demonstrado resiliência e possuem um considerável potencial de crescimento ainda não explorado. Atualmente, pelo menos 345 empresas têm faturamento anual superior a US$ 1 bilhão e, juntas, geram mais de US$ 1 trilhão em receitas. Grandes empresas na África podem destravar US$ 550 bilhões em crescimento até 2030 com estratégias ambiciosas para acessar novos mercados, fortalecer a produtividade, aumentar a eficiência operacional e desempenhar um papel importante na sociedade”.
A União Africana, que reúne todos os 54 países do continente para pensar e planejar o futuro coletivo, criou a Agenda 2063. Trata-se do “projeto e plano diretor” da organização que pretende, até aquele ano, nada menos do que “transformar o continente na potência global do futuro”.



