Ciro Dias Reis
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Ciro Dias Reis

Especialista em comunicação e temas internacionais. Fundador e CEO da Imagem Corporativa, é board member da International Communications Consultancy Organization e membro do Copenhagen Institute for Future Studies. Foi também global chairman da rede global PROI Worldwide

Análise: Que país é esse?

Pergunta acima pela banda Legião Urbana em um dos grandes hits musicais do ano de 1987 ainda ecoa neste 2026 de dúvidas e incertezas

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1987 teve um pouco de tudo.

Foi marcado por 363% de inflação; pela moratória da dívida externa brasileira; por uma megafraude na licitação da Ferrovia Norte-Sul que escandalizou o país; pelo acidente radioativo com o Césio-137 em Goiânia que levou a morte, imediatamente ou ao longo do tempo, dezenas de pessoas; pelo maior imbróglio da história do campeonato brasileiro de futebol, que terminou nos tribunais e teve um campeão extracampo apontado pelo Supremo Tribunal Federal apenas em abril de 2017.

Passados quase quarenta anos ainda carecemos de um rumo para chamar de nosso, capaz de proporcionar contornos mais claros em relação ao futuro.

É claro que o Brasil mudou e, em muitos aspectos, para melhor.

São exemplos disso a estabilização econômica; uma maior abertura do mercado para o comércio internacional; o engajamento bem-sucedido de algumas grandes empresas brasileiras no ambiente competitivo global; uma matriz energética onde predominam as fontes renováveis; o acúmulo de um grande volume de reservas cambiais; a diminuição da pobreza.

Mas se esse é o lado cheio do copo, também é verdade que nunca conseguimos estruturar um projeto nacional consistente e de longo prazo, ou seja, uma estratégia de estado e não de governo.

E a insistente polarização política, infelizmente, não oferece perspectivas naquela direção.

Enquanto isso, outras nações e blocos apostam de forma organizada em caminhos estabelecidos a partir de análises e prioridades resultantes de compromissos mínimos com o futuro.

Tais iniciativas possuem nome e sobrenome. Algumas delas: “Horizon Europe”; “Belt and Road Inititative” (China); “Canada Strong For All”; “Future Made in Australia”; “Agenda 2063” (União Africana); “Saudi Vision 2030”; “Vietnam 2045 Strategy”.

Tivemos, no Brasil, alguns espasmos de projetos nacionais estruturantes desde a primeira metade do século 20.

Em seu primeiro governo, nas décadas de 1930 e 1940, Getúlio Vargas fez movimentos no sentido de aumentar a intervenção do Estado na economia e assim integrar esforços destinados a garantir algum nível de progresso.

Foram criados nesse período o CNP (Conselho Nacional do Petróleo), o DASP (Departamento Administrativo do Serviço Público), a CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) e a FMN (Fábrica Nacional de Motores).

Em seu segundo governo, na primeira metade dos anos 1950, Vargas criou a Petrobras.

Na segunda metade dos anos 1950, o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek gerou otimismo Brasil afora com o slogan “50 anos em 5”.

O objetivo de expandir rapidamente a economia nacional tinha como principal apelo a implantação da indústria automobilística. Esta se tornou uma realidade e trouxe consigo uma série de investimentos paralelos no âmbito de um amplo parque de fornecedores.

Nos anos 1970 foi a vez do Plano Nacional de Desenvolvimento, nos estágios 1 e 2, implantados nos governos dos generais Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel.

No PND 1 buscou-se avançar na infraestrutura básica necessária para acompanhar os então altos índices de crescimento do país, caso das rodovias (Transamazônica, por exemplo), energia elétrica (construção de Itaipu) e telecomunicações (implantação dos sistemas Discagem Direta à Distância e Discagem Direta Internacional).

O PND 2 veio como um ajuste de rota e resultou do chamado Primeiro Choque do Petróleo, commodity que subiu dos US$ 3 para os US$ 12 por barril em menos de seis meses entre 1973 e 1974 e desestruturou a economia global.

Em sua segunda versão o PND apostou em crescentes e arriscados investimentos estatais visando substituir produtos importados de alto valor e caminhar na direção de uma autossuficiência discutível.

Foi quando avançamos nos investimentos em siderurgia (a holding estatal Siderbrás coordenava o setor) e petroquímica (a estatal Norquisa fazia o mesmo). Investimentos pesados também foram realizados na produção de máquinas e equipamentos, na expansão da prospecção e extração de petróleo e na criação do Proálcool (destinado a criar uma alternativa ao uso da gasolina nos automóveis nacionais).

Mas tais modelos naufragaram diante da dependência dos financiamentos externos.

Estes, contratados em grande quantidade a juros baixos em tempos de bonança, tornaram-se impagáveis quando uma súbita alta dos juros internacionais sufocou o país e gerou um cenário de crise que combinou inflação, estagnação econômica e aumento de desemprego.

Esse conjunto de variáveis levou os anos 1980 a serem lembrados como a “década perdida”.

Nos anos 1990 os dois governos de Fernando Henrique Cardoso pavimentaram o caminho para possíveis ações mais organizadas em direção ao futuro.

Foram criadas a Lei de Responsabilidade Fiscal; o Proer (programa de saneamento do sistema financeiro); o Tripé Macroeconômico (regime de metas de inflação, câmbio flutuante e perseguição de superávits primários).

Mas no primeiro quarto do século 21 não conseguimos tirar proveito de um cenário macroeconômico razoavelmente saneado para nos dedicarmos a projetos nacionais estruturantes. E as plataformas dos atuais candidatos à presidência da República neste 2026 não parecem fazer disso uma prioridade.

Por tudo isso, ainda podemos perguntar: que país é esse?

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