Falta de resultados faz maioria dos britânicos considerar Brexit um erro
Dez anos depois de sair da União Europeia o Reino Unido vê a economia perder vigor, investimentos desacelerarem e a instabilidade política crescer

Na segunda semana de junho de 2016 a tradicional revista alemã Der Spiegel trazia um inusitado apelo em sua capa: "Bitte geht nicht!". Ou “Por favor, não saiam”.
A publicação fazia coro com boa parte da opinião pública do continente em relação ao referendo que teria lugar poucos dias depois para decidir sobre a saída ou permanência do Reino Unido na União Europeia, à qual os britânicos haviam aderido em 1973.
A respeitada publicação inglesa The Economist também se posicionava, dias antes do referendo: “The Economist não está neutra: nós estamos convencidos de que a decisão de sair (o chamado Brexit) seria ruim para a Grã-Bretanha, para a Europa e para o mundo”. E acrescentava que abandonar o bloco seria “um salto no escuro”.
O então presidente francês François Hollande e a então primeira-ministra alemã Angela Merkel também defendiam a permanência dos britânicos, bem como o primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy. Na verdade, o meio político europeu manifestava quase em uníssono a opinião de que o Brexit deveria ser repelido nas urnas.
Dez anos e seis primeiros-ministros britânicos depois, os números endossam os temores manifestados naquele momento.
Analisando a trajetória que se seguiu à saída da União Europeia o Institute for Economic Policy Research da prestigiosa universidade de Stanford verificou que até 2025 o PIB (Produto Interno Bruto) do Reino Unido foi reduzido entre 6% e 8%. Ao mesmo tempo, os investimentos em geral caíram de 12% e 18% e os empregos ficaram entre 3% e 4% mais escassos. O estudo mediu também o fator produtividade da economia britânica: ela foi afetada negativamente entre 3% e 4%.
Segundo o instituto de pesquisas YouGov, sediado em Londres, atualmente 57% dos cidadãos do Reino Unido acreditam que a saída da União Europeia foi um erro. E 23% dos respondentes que disseram ter apoiado a tese do Brexit em 2016 mostram-se arrependidos do voto dado à época.
YouGov apurou ainda que seis em cada dez britânicos consideram o Brexit um fracasso. E 55% apoiariam o retorno à UE caso o Reino Unido pudesse contar com as mesmas condições que usufruía quando era um membro daquela comunidade.
Os súditos da coroa entendem, de forma geral, que fazer o caminho de volta seria benéfico para a economia, embora somente 31% acreditem que isso melhoraria as finanças de suas próprias famílias.
National Institute of Economic and Social Research, um centro de estudos independente, afirmou recentemente que a incerteza provocada pela saída do bloco reduziu o investimento empresarial de longo prazo em cerca de 4%.
A tese do Brexit saiu vencedora nas urnas em 2016 por uma pequena diferença (52% versus 48%) e se hoje ela desagrada a maioria dos britânicos, são os jovens os mais enfáticos nesse posicionamento: 2/3 dos cidadãos entre 18 e 24 anos apoiam a ideia de o Reino Unido vincular-se novamente a Europa.
Segundo pesquisa do think tank European Council on Foreign Relations, uma pergunta específica feita a jovens que dez anos atrás não tinham idade para votar mostrou que 70% deles, se pudessem, teriam ido às urnas pela permanência da Grã-Bretanha na União Europeia. A mesma pesquisa indicou que do total dos entrevistados, 57% disseram ter sido um erro abandonar o bloco, enquanto outros 30% disseram o contrário e 17% não souberam responder.
A vitória do Brexit em 2016 estimulou agrupamentos políticos na Holanda, na França, na Itália e na Suécia a defender ideia semelhante para seus países. Mas esses movimentos tiveram fôlego curto por uma série de circunstâncias, que vão além dos números da economia.
O primeiro ensaio de possível afastamento dos Estados Unidos em relação a Europa, já no primeiro mandato de Donald Trump (janeiro de 2017 a janeiro de 2021), foi um sinal de alerta. Os desdobramentos de uma pandemia que redirecionou prioridades políticas e econômicas a partir de 2020 também influíram.
O mesmo no tocante aos temores frente a uma Rússia claramente expansionista e ameaçadora ao continente, a partir da invasão da Ucrânia em 2022.
A União Europeia tem tentado reagir de forma organizada a um conjunto de fragilidades que ela reconhece existir. E intensifica esforços entre seus 27 países membros visando virar essa página e contribuir para um ambiente de negócios mais atraente e, tanto quanto possível, de amarras regulatórias menos limitadoras.
O bloco tem sido pressionado pela agressividade das marcas chinesas, de um lado, e pela temporada de tarifas impostas por Washington no comércio com o continente, de outro. E a própria ruptura nas práticas comerciais que pareciam consolidadas globalmente empurra o continente na busca de novas soluções (apenas nos últimos seis meses foram definidos acordos de comércio com o Mercosul, a índia e a Austrália).
Em paralelo, a Comissão Europeia presidida por Ursula van der Leyen implementa iniciativas destinadas a recuperar a competitividade e retomar o protagonismo que o bloco ostentava nas primeiras duas décadas do século no cenário global. Além disso, está em pleno andamento um movimento de rearmamento do continente, de olho nas ameaças potenciais representadas por Moscou.
“Quando falamos de independência, estamos falando de escolher nosso destino. É por isso que a Ucrânia luta”, disse ela em recente discurso a lideranças políticas do continente. “E é isso que todos os europeus merecem. Porque a Europa é uma ideia – a ideia de liberdade e força mútua”.
Hoje não se tem notícia de países minimamente interessados em deixar a União Europeia. Pelo contrário, cresce a fila de nações que pretendem se juntar aos atuais 27 países membros. São candidatos: Ucrânia, Moldávia, Albânia, Bósnia-Herzegovina, Geórgia, Macedônia do Norte, Montenegro, Sérvia e Turquia.



