Análise: Eleições na Hungria preocupam UE, mobilizam Moscou e atraem EUA

Em 2025 Budapeste recebeu as filmagens de “Missão Impossível – Acerto Final”, onde ajustes de contas no mundo da espionagem foram protagonizados pelo agente Ethan Hunt, representado por um Tom Cruise ágil e impecável em seus 62 anos de idade.
Em 2026, na mesma Budapeste, outro personagem de 62 anos está no centro de sigilosas movimentações com ares de intriga internacional, só que desta vez no mundo real: trata-se de Viktor Órban, primeiro-ministro há 16 anos e que tenta nova reeleição em uma Hungria que vai polarizada às urnas em 12 de abril. Pesquisas apontam razoável vantagem do ex-aliado e candidato da oposição Peter Magyar, que faz campanha como um reformista anticorrupção e que já definiu o adversário como líder de uma “máfia” no comando do país.
Em seu longo período no poder Orbán redesenhou os distritos eleitorais e reescreveu a Constituição. Fez grandes mudanças no sistema judiciário e alterou a estrutura da própria Suprema Corte, que teve o número de seus integrantes ampliado de 11 para 15 e a aposentadoria dos juízes reduzida de 70 para 62 anos, sempre visando garantir maioria folgada na casa. Mais: indicou nomes de sua extrema confiança para instituições-chave do país. O atual primeiro-ministro definiu seu modelo de gestão junto a outros nacionalistas da Europa como “iliberal” e à prova de eleições.
Para a União Europeia uma eventual mudança no governo representaria um alívio. Afinal, Órban e seu partido Fidesz mantêm fortes laços de amizade com Vladimir Putin, este sabidamente interessado em uma Europa dividida e enfraquecida. A parceria garante a Moscou uma posição estratégica dentro da Otan e da União Europeia, organismos dos quais a Hungria é país membro.
Tradicional voz discordante de políticas e decisões assumidas pela União Europeia, o primeiro-ministro húngaro é acusado de compartilhar com o Kremlin informações reservadas de discussões e processos de decisão dos 27 países membros, conforme reportagens recentes da imprensa ocidental.
Bruxelas, a propósito, já suspendeu ajuda financeira de um bilhão de euros a Hungria no ano passado, sob alegação de que o país adota procedimentos incompatíveis com os padrões de governança exigidos no bloco.
Diante das dificuldades eleitorais do atual primeiro-ministro, Moscou teria até mesmo engendrado um plano para simular um atentado contra Órban e, assim, sensibilizar parte do eleitorado a apoiar seu aliado nas urnas. É o que apontam documentos secretos que vieram à tona e foram detalhados pelo jornal americano Washington Post.
Agentes do serviço de inteligência russo SVR teriam proposto uma maneira de “alterar fundamentalmente todo o paradigma da campanha eleitoral” — “a encenação de uma tentativa de assassinato contra Viktor Orbán”. Objetivo: “Um incidente como esse deslocará a percepção da campanha do âmbito racional das questões socioeconômicas para um âmbito emocional, onde os temas principais passarão a ser a segurança do Estado e a estabilidade e defesa do sistema político”. É o que diz o texto dos agentes em relatório preparado para a principal unidade de operações de influência política do SVR, o Departamento de Medidas Ativas.
No início deste mês, o jornal inglês Financial Times afirmou que o Kremlin havia lançado uma campanha de desinformação com o objetivo de ajudar Viktor Orbán a se reeleger. Em outra reportagem, o portal investigativo VSquare também noticiou que Moscou havia começado a contribuir com conselhos e estratégias de comunicação para a campanha do primeiro-ministro — informação negada tanto pelo Kremlin quanto pelo governo húngaro.
Moscou se preocupa com as eleições na Hungria, mas Washington não fica atrás. Marco Rubio, secretário de Estado americano, visitou Budapeste em fevereiro e afirmou a Viktor Órban que “seu sucesso é o nosso sucesso”. Em mensagem de vídeo há poucos dias o próprio presidente Donald Trump manifestou a ele “apoio total e irrestrito”.
Em meados do ano passado, por sinal, o governo americano já havia indicado claramente suas preferências em outra importante eleição europeia, a de presidente da Polonia. Washington demonstrou suporte a Karol Nawrocki, nacionalista de postura eurocética apoiado pelo partido ultraconservador Lei e Justiça (PiS). Ele venceu a corrida eleitoral com 50,89% dos votos no segundo turno, moldando um cenário nebuloso no país uma vez que o primeiro-ministro polonês Donald Tusk é um forte adepto da União Europeia.
Na Hungria, os problemas econômicos têm aumentado rapidamente a insatisfação da população. Fatores como crescimento abaixo do esperado, perda do poder aquisitivo e preços ao consumidor 50% mais altos em comparação com 2020 têm representado uma dor de cabeça para o governo. Por isso seu esforço de tentar desviar a atenção dos eleitores para supostos riscos à segurança do país no caso de uma vitória do candidato da oposição e seu partido Tisza.
A variável Ucrânia tem sido outra peça desse quebra-cabeças. A União Europeia sinaliza com um empréstimo de 90 bilhões de euros para Kiev mas Budapeste bloqueia a ideia, acusando o governo de Volodimir Zelensky de interromper o fornecimento de petróleo barato russo para a Hungria através do oleoduto Druzhba, que atravessa o território ucraniano. A mesma reclamação é feita pelo governo da vizinha Eslováquia, de postura também amigável em relação a Moscou.
Ocorre que o oleoduto foi danificado pelas forças militares de Moscou na guerra da Ucrânia e sua recuperação, em pleno conflito, não é tão simples, rebate Kiev.
Viktor Órban e Volodymir Zelensky, por sinal, têm trocado farpas nas últimas semanas. O primeiro-ministro húngaro acusou os ucranianos de planejarem ataques contra a infraestrutura de energia do seu país e até contra sua família.
No ambiente da diplomacia europeia não se descarta a hipótese de Órban tentar medidas extremas para evitar a perda do poder, contando eventualmente com a ajuda do Kremlin. Com cada candidato acusando o outro de manipulação, campanhas difamatórias em andamento e pesquisas se acirrando, crescem em Budapeste as preocupações de que o resultado das urnas possa ser contestado.



