Comportamento de Milei no Brasil desagradou boa parte dos argentinos
Enquanto diplomacia tenta baixar temperatura, em Buenos Aires 30 deputados repudiam presidente e dois advogados pedem explicações sobre a viagem

Os insultos disparados por Javier Milei em direção ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes, bem como a acusação juvenil de que o Brasil estaria liderando uma campanha anti-Argentina são, naturalmente, lamentáveis.
Mas não apenas isso. Causam profundo mal-estar em grande parte da opinião pública e do próprio setor produtivo local, para quem os negócios bilaterais não devem ser prejudicados por divergências políticas ou ideológicas.
O Brasil é o maior mercado dos produtos argentinos (absorvemos cerca de 14% de todas as suas exportações) e tem o maior contingente entre os turistas de diferentes nacionalidades que visitam o país (cerca de 30% do total dos viajantes). Além disso o mercado nacional é o segundo no ranking dos maiores consumidores dos vinhos oriundos do território vizinho.
O comportamento do mercurial ocupante da Casa Rosada representa a antítese do diálogo cultivado ao longo de décadas entre Brasília e Buenos Aires. Mesmo que imperfeita e com diversos altos e baixos essa relação mostrou resiliência e permitiu a consolidação do Mercosul, além de tornar os dois países relevantes parceiros econômicos com trocas comerciais superiores a 30 bilhões de dólares em 2025.
Editor do Clarin, o mais importante jornal argentino, o jornalista Pablo Vaca escreveu: “Não é pouca coisa dizer ‘ladrão’, ‘presidiário’ e ‘lixo’ ao presidente de um país amigo e vizinho que além de tudo é nosso principal parceiro comercial (...) Duas perguntas surgem imediatamente: Era necessário? E para quê?”. O próprio jornalista arrisca uma resposta: “A encenação foi realizada para um espectador especial, Donald Trump, chefe dos chefes”.
Trinta deputados argentinos repudiaram o comportamento de Javier Milei após sua passagem por São Paulo para participar do lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência do Brasil. E dois advogados de Buenos Aires requisitaram informações formais do governo acerca da viagem, bem como seus custos para os cofres públicos.
Ámbito, jornal econômico de Buenos Aires, abriu espaço para o comentário de Geraldo Alckmin: “O vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin, assegurou que essa é uma atitude que prejudica a Argentina (...) ‘É lamentável que o presidente de um país vizinho, amigo, que inclusive faz parte do Mercosul, prejudique seu próprio país’”.
La Nación, outro tradicional diário local argentino, reproduziu declaração do assessor especial do governo brasileiro Celso Amorim e ex-ministro das Relações Exteriores, destinada a desescalar o episódio e proteger os laços institucionais entre os dois países: "Amamos o povo argentino e damos enorme importância às relações construídas desde o retorno da democracia".
Na mesma direção contemporizadora de Amorim, o atual chanceler argentino Pablo Quirno afirmou que “não há nenhuma chance de que, de nosso lado, se rompa essa relação. Não levamos o assunto ao plano institucional”. O próprio porta-voz do presidente, Adrian Ravier, já havia enfatizado: “Uma coisa é o que Lula e Milei pensam um do outro, mas a agenda comercial se mantém”.
A principal promessa de campanha de Javier Milei era sanear a economia e debelar a inflação. Os subsídios e outras despesas governamentais foram drasticamente reduzidos, melhorando substancialmente as contas públicas. Mas a inflação, que havia chegado a 160,9% anualizados antes de sua posse, embora tenha diminuído insiste em se manter em um patamar ainda alto. Mais de 31 meses após assumir a presidência ela está em 33,5% anuais.
Com a aprovação de seu governo oscilando entre 33% e 40%, dependendo da pesquisa, Milei já se prepara para tentar a reeleição, em outubro de 2027, momento em que o Congresso será renovado.
Autoproclamado anarcocapitalista, ele possivelmente enfrentará nas urnas o ex-presidente Mauricio Macri, de centro, e o atual governador da província de Buenos Aires, o peronista de esquerda Axel Kicillof.



