Cresce a preocupação da Europa com a “guerra híbrida”
Episódios envolvendo drones, cortes de cabos submarinos e interferência nas frequências GPS usadas na aviação comercial continuam se multiplicando

As temperaturas mais amenas do outono que se aproxima contrastam com o aumento da temperatura nas áreas de defesa e segurança na Europa.
O cenário é resultado da multiplicação de incidentes em diferentes países do continente cuja fabricação tem sido atribuída a Moscou. O episódio mais recente de grande repercussão diz respeito a um drone encontrado no aeroporto de Leipzig, no leste da Alemanha em 4 de agosto. Segundo investigações realizadas o equipamento tinha configuração militar, carregava explosivos e aparentava ter um detonador defeituoso.
Câmeras de segurança do aeroporto apontaram que o drone havia colidido com uma asa de avião de carga ucraniano de grande porte estacionado no pátio. Os investigadores disseram que o artefato poderia ter causado danos significativos e até matado pessoas caso tivesse explodido, uma vez que os tanques de combustível do avião estão situados muito próximos da parte atingida da fuselagem.
Na mesma semana outro avião de carga que se aproximava do mesmo aeroporto foi alcançado por objeto que investigadores identificaram como um segundo drone. Um terceiro dispositivo também carregado com explosivos foi encontrado mais tarde em um campo próximo antes de causar novo incidente.
Alexander Dobrindt, ministro do Interior da Alemanha, disse na terça-feira que os investigadores tinham provas de que o equipamento encontrado no aeroporto de Leipzig havia sido controlado por agentes que atuavam “em nome de entidades estatais russas”. E acrescentou: “Em conjunto, investigações policiais, padrões de operação e descobertas de inteligência provam a responsabilidade russa pela tentativa de ataque”, disse ele em uma coletiva de imprensa.
As autoridades federais consideram o incidente parte de um padrão de ações híbridas contra as empresas de infraestrutura e defesa da Alemanha, que é um dos países mais claramente alinhados à Ucrânia.
Nesta semana outro episódio preocupante ocorreu no país. Explosões foram relatadas em uma subestação de eletricidade perto de uma usina no leste do território, perto da fronteira com a Polônia. Autoridades afirmaram que pelo menos dez dispositivos incendiários caseiros foram encontrados no local, numa ação definida como “sabotagem direcionada”. Neste caso não foram apontados os supostos mentores da iniciativa.
“Quero deixar uma coisa clara: não estamos em guerra, mas somos um alvo diário da guerra híbrida”, disse o ministro Alexander Dobrindt.
O presidente Vladimir Putin rebateu as acusações na quarta-feira dizendo que as autoridades alemãs estariam criando falsas evidências. Segundo ele, Berlim estaria querendo culpar a Rússia por problemas políticos atualmente enfrentados pelo chanceler alemão Friedrich Mertz.
A reação do governo alemão ao episódio veio por meio de diferentes medidas. Entre elas estão o fechamento da missão diplomática russa em Bonn; a restrição das viagens de cidadãos russos a Alemanha; a sugestão de uma maior pressão sobre a “frota fantasma” que Moscou utiliza para contornar o embargo comercial ao país e que é composta por navios petroleiros que navegam disfarçados com bandeiras de diferentes nações.
Vários líderes europeus expressaram apoio à Alemanha. O primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, disse em comunicado que a Grã-Bretanha “é totalmente solidária com a Alemanha após o ataque flagrante e imprudente da Rússia”, enquanto Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, reiterou críticas a Moscou e endossou as posições de Berlim.
Autoridades europeias entendem que Moscou está multiplicando ações de espionagem e ataques clandestinos em pequena escala em vários países que apoiam a Ucrânia.
Romênia, Letônia, Polônia e Lituânia, por exemplo, frequentemente detectam drones de configuração militar em seus respetivos espaços aéreos. Eles geralmente são interceptados por aviões de combate de suas próprias forças armadas ou por jatos das forças da OTAN.
Objetos voadores não autorizados têm sido flagrados nas proximidades de grandes centros de transporte, forçando o fechamento temporário do espaço aéreo e o cancelamento de voos em diferentes países do continente. Nos últimos meses houve interrupções significativas em hubs internacionais como Copenhague e Oslo, além do polo logístico de Rzeszów-Jasionka, na Polônia.
Análises de órgãos europeus de inteligência indicam que “drones suspeitos” tem sido presença constante nas cercanias de instalações de defesa ocidental. Apenas no Reino Unido 266 dessas ocorrências foram registradas no último ano, especialmente em áreas onde estão localizadas bases aéreas britânicas utilizadas pela Força Aérea dos Estados Unidos.
Governos europeus e a OTAN também se preocupam de forma crescente com a segurança dos cabos subterrâneos e submarinos de telecomunicações e de energia que servem diferentes países do continente. Vários episódios de ruptura daqueles cabos no Mar Báltico têm sido associados a ações de guerra híbrida que estaria sendo promovida pela Rússia. A mesma suspeita recai sobre interferências ocorridas nas frequências GPS utilizadas na aviação comercial na região.



