Desencanto predomina em uma Venezuela de crises sucessivas
Maioria dos habitantes afirma que a vida está pior hoje do que há um ano. Inflação, custo dos alimentos, baixos salários e falta de perspectivas são as maiores preocupações

Oito meses após a operação militar de 3 de janeiro que derrubou, capturou e levou Nicolás Maduro aos Estados Unidos, abrindo espaço para sua vice Delcy Rodriguez assumir o cargo de presidente interina, o clima é de desencanto na sociedade venezuelana.
Nos últimos dias conversei com três profissionais venezuelanos em posições de liderança. Eles relataram visões similares que expressam enorme incerteza em relação a um possível projeto estruturante para o país no curto prazo.
Um deles, Marcos Hernández López, é CEO da consultoria Hercon, que há anos realiza pesquisas sobre tendências nacionais. Ele me disse: “Somos um pobre país rico. E as pessoas não estão vendo vantagens no sistema de tutela que a Venezuela está vivendo hoje”. O comentário é uma alusão ao fato de que a posse das maiores reservas de petróleo do mundo estão muito longe de se traduzir em riqueza para o país e bem-estar para sua população, situação que não dá sinais de mudança tão cedo.
López acaba de divulgar sua mais recente pesquisa, que indica a predominância de um alto nível de pessimismo na Venezuela. Há tempos castigado econômica, social e politicamente, o país sofreu impacto adicional com os terremotos do mês de junho e tomou conhecimento de acordo que garante a Washington acesso privilegiado a grande quantidade de petróleo do país.
Aos números.
A pesquisa da Hercon foi realizada em Caracas e principais cidades do país entre 1º. e 28 de agosto por meio de 1.200 entrevistas presenciais. Foram ouvidas pessoas acima de 18 anos pertencentes as classes A/B, C, D e E. O principal objetivo foi conhecer a percepção dos venezuelanos sobre a situação do país após a saída de Nicolás Maduro do poder.
Uma das perguntas procurou comparar a situação econômica do entrevistado e sua família atualmente com a condição vivida um ano antes. 50,6% responderam que a situação hoje é “pior” enquanto outros 22% disseram ser “muito pior”.
E qual o problema que mais afeta o entrevistado e sua família? Para 60,1% destacam-se as condições atuais da economia e a inflação de forma geral, seguidas pela preocupação específica relativa ao custo dos alimentos, com outros 30,2%.
O preço dos alimentos mostra sua face mais cruel quando a pergunta se refere ao número de refeições diárias dos entrevistados. 55,1% conseguem se alimentar três vezes ao dia, enquanto 22,3% fazem duas refeições devido às limitações do orçamento e 20,1% têm recursos para apenas uma refeição ao dia.
Algum grau de pobreza afeta hoje 87% dos venezuelanos, segundo Marcos Hernandez López. “O salário médio no país corresponde hoje a 250 dólares, enquanto a cesta básica para uma família de quatro pessoas custa em torno de 800 dólares”, diz. Isso explica, segundo ele, o fato de que esse cenário hoje preocupa mais os cidadãos do que as questões de segurança e violência urbana, tradicionalmente destacadas em outros momentos.
Segundo a pesquisa, 80% dos entrevistados desaprovam “totalmente” as medidas econômicas e sociais que a presidenta interina Delcy Rodriguez vem tomando, enquanto apenas 10,6% têm opinião oposta.
E qual a visão sobre a influência do governo dos Estados Unidos nas decisões políticas da Venezuela? Para 41,2% dos respondentes ela é “negativa”, enquanto para outros 22,1% é “muito negativa”. Opiniões opostas de que a influência é “positiva” ou “muito positiva” somam 22,6%.
Segundo 80% dos venezuelanos a realização de eleições presidenciais deve ser vista como tema prioritário no campo político. E caso as eleições se realizassem esse ano, quem seria o melhor nome para liderar o país? Segundo 73,5% dos entrevistados, a líder de oposição Maria Corina Machado. Ela foi impedida pelo governo de Nicolás Maduro de concorrer às últimas eleições presidenciais, em 2024.
Outra questão: a partir dos episódios de 3 de janeiro, a situação política do país vai na direção certa ou não? Para 75% dos respondentes o país está indo na direção errada. Apenas 12,1% dizem o contrário.
E em um país tão marcado por crises sucessivas, quais são as instituições “confiáveis” e “muito confiáveis? Lideram a lista, praticamente empatadas, as a igreja católica e as universidades, respectivamente com 73,6% e 72,9%.
A explicação, segundo o CEO da Hercon: a igreja tem mantido uma conexão clara com a população e suas dificuldades ao longo dos anos, mostrando-se comprometida com os direitos humanos; por sua vez as universidades, muito em função das manifestações de rua organizadas por seus estudantes, se consolidaram como polos de resistência ao regime bolivariano de Hugo Chavez e Nicolás Maduro e pilares de defesa da democracia.



