Ciro Dias Reis
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Ciro Dias Reis

Especialista em comunicação e temas internacionais. Fundador e CEO da Imagem Corporativa, é board member da International Communications Consultancy Organization e membro do Copenhagen Institute for Future Studies. Foi também global chairman da rede global PROI Worldwide

Globalização não é mais a mesma e ganha novos formatos

Conceito que prometia união mundial é repensado diante de crises, protecionismo e novas alianças regionais

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Globalização.

Tão forte quanto autoexplicativo, o termo ainda inspira expectativas de construção de pontes entre nações bem-sucedidas e países em desenvolvimento, abrindo espaço para interesses comuns e benefícios mútuos. Isso, apesar do conceito ser visto cada vez mais como algo ultrapassado.

Quando a globalização entrou para o vocabulário coletivo, na virada dos anos 1990, seu potencial era tão grande que, para muitos, encerraria um longo ciclo da humanidade. A ponto de seus pilares representarem o “Fim da História”, conforme intitulou seu livro o polêmico economista americano Francis Fukuyama, em 1992. Para ele, após o colapso da União Soviética e a jornada bem-sucedida das democracias liberais impulsionadas pelo livre mercado, um novo mundo estaria começando. Avanços tecnológicos e soluções capazes de aproximar países e multiplicar negócios ampliariam o bem-estar de um número crescente de cidadãos.

Por essa ótica, integração e interdependência entre nações seriam capazes de garantir estabilidade geopolítica e pavimentar o caminho para um futuro de conflitos reduzidos.

O fato é que, até certo ponto, aquela crença se transformou em realidade e a globalização esteve em voo de cruzeiro por um longo período. Mas com o passar do tempo acabou recebendo golpes. Entre eles: a Covid19 que rompeu cadeias produtivas; insatisfações no ambiente social causadas pela transferência de empregos de umas para outras geografias do planeta; movimentos protecionistas e disputas tarifárias que acabaram transformando vetores econômicos em sensibilidades geopolíticas.

Revisões de rota foram se desenhando ao longo da década atual. Exemplos: planos governamentais para garantir abastecimento de produtos e matérias-primas a partir de fontes mais próximas (nearshoring); retomada local (reshoring) de atividades produtivas no passado transferidas para mercados de custos mais baixo; intensificação de parcerias com países considerados politicamente mais confiáveis (friendshoring).

Enfraqueceu ainda mais aquele ecossistema antes pouco contestado a decisão do governo Donald Trump de romper tradicionais laços comerciais e de defesa com a Europa; a entrada em cena de novas e dinâmicas variáveis no comércio internacional; a guerra no Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz (por onde passa mais de 20% do petróleo consumido no mundo, além de grande volume de fertilizantes).

Evidentemente, não se pode dizer que a globalização seja uma página virada. Aliás, longe disso. Mas parece claro que uma revisão de sua jornada tem se tornado inevitável.

É possível imaginar uma versão 2.0 a partir da qual o modelo original se transforme em uma espécie de globalização seletiva ou “regionalizada”. Nesse sentido, fatores como confiança, segurança, previsibilidade e resiliência funcionariam como uma espécie de escudo contra variáveis externas de alto risco em um mundo em ebulição.

Forçada pelas circunstâncias a Europa se movimenta na direção de uma alternativa. O continente foi deixado de lado pelos Estados Unidos; luta para ampliar sua competitividade e retomar maior protagonismo econômico; é fustigado pelo apetite insaciável dos chineses por seu mercado consumidor. E, não menos importante, se preocupa dia e noite com uma guerra na Ucrânia que ameaça suas fronteiras e suga recursos destinados a apoiar Kiev na luta contra Moscou.

A União Europeia assinou com o Mercosul um acordo de livre comércio em dezembro do ano passado e que entra em vigor, ainda que de forma provisória, em 1º. de maio. E neste 2026 de enormes desafios bateu o martelo também com Índia e Austrália, dois países que também entraram na mira de Washington por questões econômicas.

Ou seja, é possível prever que a globalização puro-sangue dê lugar a blocos independentes de países interessados em focalizar segmentos específicos, agilizando negociações. O acordo comercial da UE com a Índia, por exemplo, excluiu boa parte dos produtos agrícolas, visando proteger pequenos empreendedores dessa área e evitar vetos ou bloqueios.

Em paralelo a abordagens inovadoras entre países e blocos, uma globalização mais sintonizada com o momento atual seria beneficiada também por organismos multilaterais fortalecidos. ONU e Organização Mundial de Comércio, por exemplo, apresentam claros sinais de desgaste e merecem ser revigoradas para voltar a proporcionar suporte e equilíbrio entre as nações, além de um sempre bem-vindo colchão de governança. Banco Mundial e FMI, com suas sólidas estruturas e trajetórias também possuem condições de contribuir para a criação de um novo cenário.

Ideias e sugestões colocadas no papel não significam soluções garantidas nem respostas definitivas. Também não sugerem que sua implementação será fácil. Além disso, em nada contribui adotar um otimismo simplista ou ingênuo frente a tantos desafios do atual ambiente global. Mas parece inquestionável existir urgência para sairmos do debate para a ação e criarmos mecanismos para que as relações comerciais retomem sua jornada de diminuir tensões e contribuir para a prosperidade.