Suécia indica vitória da centro-esquerda, mas não deve ter mudança radical
Virtual derrota da direita ocorre com participação superior a 80% dos eleitores cadastrados; novo governo deve ser formado por sociais-democratas e partidos de esquerda

Um país polarizado que assiste a forças de esquerda e de direita disputando voto a voto a preferência nas eleições gerais, tendo como pano de fundo pesquisas que indicam equilíbrio e muita emoção até o anúncio dos resultados finais.
O cenário pode sugerir o Brasil na reta final da corrida presidencial, mas, neste caso, os fatos ocorrem a 11 mil quilômetros de distância.
País escandinavo de território pouco menor que o estado da Bahia e com uma população de 10,6 milhões de habitantes, equivalente à do Rio Grande do Sul, a Suécia acaba de ir às urnas em ambiente de expectativa incomum.
Dona de um invejável PIB per capital de US$ 55 mil (equivalente a cerca de R$ 284 mil, cinco vezes maior do que o brasileiro) e um nível de vida bastante superior à média mundial, a Suécia nem por isso deixa de ter seus desafios e preocupações.
Eles podem ser a vizinhança com uma sempre imprevisível Rússia ou a perda de fôlego do crescimento econômico. Ou ainda a criminalidade que atingiu patamares preocupantes nesta década.
Os resultados finais das eleições parlamentares do último domingo (13), que indicarão o nome do chefe de governo da Suécia para os próximos quatro anos, devem ser anunciados apenas nesta quarta-feira (16), quando os votos pelo correio e aqueles enviados do exterior tiverem sido totalmente contabilizados.
Mas, já na segunda-feira (14), com mais de 95% dos votos apurados, a centro-esquerda se considerava vencedora, projetando a conquista de uma pequena maioria dos 349 assentos no Parlamento.
Esse bloco, liderado pelos sociais-democratas, deve indicar Magdalena Andersson como primeira-ministra, em substituição a Ulf Kristersson, do partido Moderados.
Ao longo da campanha, Kristersson fez acenos para o partido Democratas Suecos, de extrema direita (que teve origem em simpatizantes neonazistas), para a formação de um governo de coalizão caso suas agremiações obtivessem, somadas, a maioria de cadeiras no Parlamento.
Esses acenos ganharam especial relevância a partir da vitória da AfD, partido de extrema direita da Alemanha, nas eleições regionais no estado da Saxônia-Anhalt no domingo anterior.
Isso porque uma vitória dos Moderados, se obtida graças ao suporte dos Democratas Suecos, poderia, além de garantir uma significativa participação desse grupo no novo gabinete, sinalizar ventos a favor para a extrema direita na Europa como um todo.
E isso aconteceria a meses de outras eleições importantes no continente, já que França, Espanha e Itália irão às urnas em 2027 e cada um desses países conta com grupos políticos de extrema direita que ganharam musculatura nos últimos anos.
Apesar da virtual mudança no controle político da Suécia, não se esperam grandes guinadas no país em relação a temas que preocupam a população de forma geral, e para os quais o atual governo tem dedicado bastante atenção nos últimos anos.
Dois casos exemplares são o aumento do controle sobre a imigração e os avanços no combate à criminalidade.
Parece haver, isso sim, desejo generalizado por uma estabilidade política em um momento de grandes tensões geopolíticas na Europa.
“Temos que olhar para a big picture”, disse Hannes Hervieu, secretário do Partido do Centro e aliado dos sociais-democratas para a formação do próximo governo.
Segundo ele, o resultado projetado das urnas "mostra que os eleitores não querem uma guinada à esquerda na economia nem um papel importante para os Democratas Suecos, de extrema direita, na política nacional”.
Os sociais-democratas, tradicionalmente, dedicam foco especial a temas como educação e saúde em seu ideário. Mas, durante a campanha, sua líder, Magdalena Andersson, também enfatizou a questão econômica.
“O foco é vencer e definir um novo rumo para a Suécia. Nós nos tornamos uma sociedade mais dura, mais silenciosa, mas também uma sociedade mais pobre, pois tivemos um crescimento muito abaixo do nosso potencial e as famílias veem seus salários comprarem cada vez menos”, declarou.



