Ciro Dias Reis
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Ciro Dias Reis

Especialista em comunicação e temas internacionais. Fundador e CEO da Imagem Corporativa, é board member da International Communications Consultancy Organization e membro do Copenhagen Institute for Future Studies. Foi também global chairman da rede global PROI Worldwide

Temperatura sobe na Europa, mas não apenas nos termômetros

Níveis inéditos são registrados em várias dimensões, do clima às relações com os EUA, passando por temores relacionados a Moscou

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Os termômetros subiram acima dos 35 graus Celsius em vários países, mudando a rotina de 410 milhões de pessoas, ou cerca de 2/3 da população do continente.

“Uma onda de calor extraordinária na Europa quebrou inúmeros recordes de temperatura e teve grandes impactos na saúde humana, nos ecossistemas, na agricultura, nas infraestruturas e na produtividade do trabalho”, alerta o World Meteorological Organization, instituição vinculada a ONU. 

O ambiente geopolítico do continente também convive com altas temperaturas. As preocupações em relação a Rússia são crescentes. “Combater as ameaças híbridas é um dos desafios mais complexos e em constante evolução que a União Europeia e os Estados-Membros enfrentam”, ressalta a Comissão Europeia.

“Elas estão se tornando cada vez mais complexas e frequentes. Nos últimos anos, em particular, os Estados-Membros da UE têm enfrentado desafios crescentes e multifacetados relacionados a drones e outros sistemas não tripulados”.

O bloco diz ser necessária uma resposta coordenada e o programa Readiness Roadmap 2030 materializa esse projeto via estabelecimento de objetivos claros sobre a defesa dos seus territórios.

O que se convencionou chamar de ameaças híbridas pressupõe estratégias que combinam ações convencionais de caráter militar com táticas disfarçadas. É o caso de processos de desinformação, ataques cibernéticos e sabotagens. São iniciativas camufladas que embaralham os limites entre paz e conflito aberto, gerando instabilidade nos países afetados ao mesmo tempo em que tentam esconder e proteger seus autores. Tais ameaças têm origem, no entender da Europa, em Moscou.

Poucos dias atrás Donald Tusk, primeiro-ministro da Polônia, afirmou que seu país está se preparando para "diversos" cenários e que os próximos meses podem ser "críticos" em relação às ameaças potenciais representadas pelo Kremlin.

A Polônia tem uma fronteira de 232 quilômetros com o exclave de Kaliningrado, um pequeno território caracterizado por forte presença militar que faz parte da Rússia. Esta estaria planejando, segundo Tusk, uma "provocação" em seu país para testar a determinação da OTAN em defender seus domínios.

"Não quero assustar ninguém, mas os próximos meses podem ser realmente críticos, também devido à natureza mutável da guerra. Essas preocupações são particularmente palpáveis nos países bálticos", disse o líder polonês.

A Comissão Europeia deixa claro seu estado de alerta para todos os movimentos do governo de Vladimir Putin, que promove nova escalada na guerra contra a Ucrânia. Por sua vez, o governo de Kiev tem castigado a Rússia com bem-sucedidos ataques de drones a suas instalações militares e de petróleo. 

A multiplicação de investimentos em defesa e segurança e a busca pela proteção conjunta no continente estiveram na agenda da reunião da Otan que terminou na quarta-feira em Ancara, na Turquia. Na cidade os termômetros marcavam uma máxima de 32 graus Celsius, mas a sensação térmica política era bem mais alta.

Lá o presidente americano Donald Trump atraiu os holofotes. Manifestou novamente a ideia de ocupar a Groenlândia (território autônomo pertencente a Dinamarca); criticou países europeus por não darem suporte a operação militar dos americanos no Oriente Médio (retomada esta semana depois de um precário cessar-fogo); e anunciou a suspensão de todas as trocas comerciais com a Espanha, a quem considerou “parceiro terrível”.

O clima esquenta também em ambientes políticos específicos da região.  

Na França a líder de direita Marine Le Pen disse que concorreria à presidência nas eleições de 2027 apesar de juízes do país defenderem sua condenação por peculato, o que pode resultar numa campanha eleitoral sem precedentes. 

No Reino Unido Keir Starmer (sexto primeiro ministro em apenas dez anos) anunciou sua renúncia em junho e continua no cargo interinamente até que seu Partido Trabalhista aponte um novo líder. No lado da oposição, o clima também esquentou com as denúncias feitas à Agência Nacional de Combate ao Crime contra Nigel Farage, líder do partido Reform UK e aguerrido defensor do Brexit.

Ele foi acusado de receber uma doação de 5 milhões de libras esterlinas (cerca de 35 milhões de reais) feita por um bilionário que atua na área de criptomoedas. 

Na Alemanha o chanceler Friedrich Merz tem índices de aprovação muito baixos, uma escassa maioria de 12 cadeiras no Bundestag e lidera uma frágil coalizão que assiste preocupada o crescimento da extrema direita. Há crescentes percepções de que a coalizão pode não sobreviver até 2029, levando a eleições antecipadas. 

E a chapa esquentou também nos aeroportos. Isso porque o EES, novo sistema de controle de fronteiras baseado em impressões digitais e reconhecimento facial implantado pela União Europeia está gerando longas filas de passageiros.

Esses por vezes são submetidos a horas de espera antes de serem liberados e as companhias aéreas sofrem com atrasos e com voos que partem sem que todos os clientes tenham embarcado. Pior de tudo: isso acontece em pleno início do verão europeu, quando o continente prevê receber 40 milhões de turistas.