Temperatura sobe na Europa, mas não apenas nos termômetros
Níveis inéditos são registrados em várias dimensões, do clima às relações com os EUA, passando por temores relacionados a Moscou

Os termômetros subiram acima dos 35 graus Celsius em vários países, mudando a rotina de 410 milhões de pessoas, ou cerca de 2/3 da população do continente.
“Uma onda de calor extraordinária na Europa quebrou inúmeros recordes de temperatura e teve grandes impactos na saúde humana, nos ecossistemas, na agricultura, nas infraestruturas e na produtividade do trabalho”, alerta o World Meteorological Organization, instituição vinculada a ONU.
O ambiente geopolítico do continente também convive com altas temperaturas. As preocupações em relação a Rússia são crescentes. “Combater as ameaças híbridas é um dos desafios mais complexos e em constante evolução que a União Europeia e os Estados-Membros enfrentam”, ressalta a Comissão Europeia.
“Elas estão se tornando cada vez mais complexas e frequentes. Nos últimos anos, em particular, os Estados-Membros da UE têm enfrentado desafios crescentes e multifacetados relacionados a drones e outros sistemas não tripulados”.
O bloco diz ser necessária uma resposta coordenada e o programa Readiness Roadmap 2030 materializa esse projeto via estabelecimento de objetivos claros sobre a defesa dos seus territórios.
O que se convencionou chamar de ameaças híbridas pressupõe estratégias que combinam ações convencionais de caráter militar com táticas disfarçadas. É o caso de processos de desinformação, ataques cibernéticos e sabotagens. São iniciativas camufladas que embaralham os limites entre paz e conflito aberto, gerando instabilidade nos países afetados ao mesmo tempo em que tentam esconder e proteger seus autores. Tais ameaças têm origem, no entender da Europa, em Moscou.
Poucos dias atrás Donald Tusk, primeiro-ministro da Polônia, afirmou que seu país está se preparando para "diversos" cenários e que os próximos meses podem ser "críticos" em relação às ameaças potenciais representadas pelo Kremlin.
A Polônia tem uma fronteira de 232 quilômetros com o exclave de Kaliningrado, um pequeno território caracterizado por forte presença militar que faz parte da Rússia. Esta estaria planejando, segundo Tusk, uma "provocação" em seu país para testar a determinação da OTAN em defender seus domínios.
"Não quero assustar ninguém, mas os próximos meses podem ser realmente críticos, também devido à natureza mutável da guerra. Essas preocupações são particularmente palpáveis nos países bálticos", disse o líder polonês.
A Comissão Europeia deixa claro seu estado de alerta para todos os movimentos do governo de Vladimir Putin, que promove nova escalada na guerra contra a Ucrânia. Por sua vez, o governo de Kiev tem castigado a Rússia com bem-sucedidos ataques de drones a suas instalações militares e de petróleo.
A multiplicação de investimentos em defesa e segurança e a busca pela proteção conjunta no continente estiveram na agenda da reunião da Otan que terminou na quarta-feira em Ancara, na Turquia. Na cidade os termômetros marcavam uma máxima de 32 graus Celsius, mas a sensação térmica política era bem mais alta.
Lá o presidente americano Donald Trump atraiu os holofotes. Manifestou novamente a ideia de ocupar a Groenlândia (território autônomo pertencente a Dinamarca); criticou países europeus por não darem suporte a operação militar dos americanos no Oriente Médio (retomada esta semana depois de um precário cessar-fogo); e anunciou a suspensão de todas as trocas comerciais com a Espanha, a quem considerou “parceiro terrível”.
O clima esquenta também em ambientes políticos específicos da região.
Na França a líder de direita Marine Le Pen disse que concorreria à presidência nas eleições de 2027 apesar de juízes do país defenderem sua condenação por peculato, o que pode resultar numa campanha eleitoral sem precedentes.
No Reino Unido Keir Starmer (sexto primeiro ministro em apenas dez anos) anunciou sua renúncia em junho e continua no cargo interinamente até que seu Partido Trabalhista aponte um novo líder. No lado da oposição, o clima também esquentou com as denúncias feitas à Agência Nacional de Combate ao Crime contra Nigel Farage, líder do partido Reform UK e aguerrido defensor do Brexit.
Ele foi acusado de receber uma doação de 5 milhões de libras esterlinas (cerca de 35 milhões de reais) feita por um bilionário que atua na área de criptomoedas.
Na Alemanha o chanceler Friedrich Merz tem índices de aprovação muito baixos, uma escassa maioria de 12 cadeiras no Bundestag e lidera uma frágil coalizão que assiste preocupada o crescimento da extrema direita. Há crescentes percepções de que a coalizão pode não sobreviver até 2029, levando a eleições antecipadas.
E a chapa esquentou também nos aeroportos. Isso porque o EES, novo sistema de controle de fronteiras baseado em impressões digitais e reconhecimento facial implantado pela União Europeia está gerando longas filas de passageiros.
Esses por vezes são submetidos a horas de espera antes de serem liberados e as companhias aéreas sofrem com atrasos e com voos que partem sem que todos os clientes tenham embarcado. Pior de tudo: isso acontece em pleno início do verão europeu, quando o continente prevê receber 40 milhões de turistas.



