Clarissa Oliveira
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Clarissa Oliveira

Viveu seis anos em Brasília. Foi repórter, editora, colunista e diretora em grandes redações como Folha, Estadão, iG, Band e Veja

Análise: Lula jogou com Lira, mas ainda não tem base para chamar de sua

Nova cúpula do Congresso até garante diálogo maior na Câmara, mas não dá garantias para 2026

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Há pouco menos de um ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sentava-se para uma conversa com Arthur Lira (PP-AL). A reunião se deu em um momento de alta tensão.

Era época de carnaval e a confusão estava armada. Lira havia alardeado para quem quisesse ouvir que não queria mais ver pela frente o ministro Alexandre Padilha, das Relações Institucionais.

Lula precisava colocar panos quentes na briga, que abriu um rombo na articulação política. Não queria substituir Padilha, mas não podia ignorar as queixas públicas do presidente da Câmara.

Foi naquela conversa, segundo interlocutores, que o presidente decidiu então firmar um compromisso com Lira: disse com todas as letras que trabalharia pela escolha de um nome comum para suceder o alagoano no comando da Câmara dos Deputados.

Naquele momento, nem se ouvia falar no nome de Hugo Motta (Republicanos-PB), cuja vitória na eleição para o comando da Câmara dos Deputados agora é dada como certa.

Elmar Nascimento (União Brasil-BA) ainda circulava pelos corredores como o favorito de Lira para a vaga. Estavam no páreo ainda outros nomes, como o presidente do Republicanos, Marcos Pereira (SP).

O cenário, que agora se anuncia na Câmara, traz algum alívio para o Planalto, em relação àquela sexta-feira, véspera do carnaval de 2024. A briga com Lira ficou para trás e a articulação para as eleições deste sábado se deram, de fato, de maneira casada.

Assim, Hugo Motta acabou levando o endosso informal de Lula (oficialmente o presidente jurou que não se meteria na disputa). Levou a melhor sobre Elmar justamente porque parte dos governistas torciam o nariz para o deputado baiano. E Lira sai com a promessa de uma votação sólida ao apadrinhado, dando sobrevida a influência dele na nova cúpula do Congresso e, consequentemente, no governo.

Mas, mesmo após meses de negociações, Lula segue sem garantias de que a base de apoio no Congresso caminhará com o governo. Em resumo, o presidente tem uma base, mas não pode chamá-la de sua. Afinal, ela é formada em boa parte por partidos que seguem com um pé no governo e outro na oposição. E não escondem a possibilidade de virar a casaca a qualquer momento. Em tempos de popularidade baixa para Lula e o respectivo governo, o risco é razoável.

No Senado, a vida de Lula também não deve ser tão fácil. Na primeira metade do mandato, Rodrigo Pacheco (PSD-MG) demonstrou boa vontade com o governo. Davi Alcolumbre (União-AP), que deve ser confirmado presidente do Senado neste sábado, tem um perfil bem diferente e mantém pontes com o bolsonarismo.

Lula ainda tem, na reforma ministerial, uma oportunidade de valorizar o passe do governo e melhorar a interlocução com alguns setores do Congresso. Já há torcida no entorno do presidente para as indicações de Lira e Pacheco na Esplanada, por exemplo. Mas até mesmo alguns dos ministros mais otimistas de Lula admitem que o jogo não será fácil. Mesmo que a reforma amplie e fortaleça a fatia de partidos como União Brasil, PSD e Republicanos.