Clarissa Oliveira
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Clarissa Oliveira

Viveu seis anos em Brasília. Foi repórter, editora, colunista e diretora em grandes redações como Folha, Estadão, iG, Band e Veja

Análise: prisão de Bolsonaro acena para 2026 e torna Flávio protagonista

Filho do ex-presidente se torna uma espécie de novo líder da resistência ao STF e porta-voz junto à mesma parcela da população que apoiou irrestritamente o Jair Bolsonaro da Presidência até a prisão

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Os acontecimentos que resultaram nesta manhã de sábado (22) na prisão preventiva de Jair Bolsonaro têm como pano de fundo muito mais do que o descumprimento de medidas cautelares, a incitação de uma mobilização ou a defesa de um homem cuja saúde está abalada.

As atitudes que levaram Bolsonaro à Superintendência da Polícia Federal deixam transparecer um olhar para as eleições do ano que vem e a sobrevivência política do bolsonarismo.

O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Alexandre de Moraes, já deu incontáveis demonstrações de como enxerga a forma como o ex-presidente, sua família e seu grupo político operam.

Em diversas ocasiões, o ministro endureceu medidas impostas ao ex-presidente por entender que havia um objetivo de mobilizar apoiadores, incitando manifestações e ataques às instituições. Foi assim que Bolsonaro passou a usar tornozeleira eletrônica. Foi assim também que Bolsonaro foi colocado em prisão domiciliar.

Como diz a própria decisão em que o ministro do Supremo decretou a prisão preventiva de Bolsonaro na manhã de hoje, o senador Flávio Bolsonaro, na sua visão, repetiu o "modus operandi da organização criminosa".

Moraes prossegue afirmando que, ao convocar a “vigília” pela saúde do pai, o senador também agiu “no sentido da utilização de manifestações populares criminosas, com o objetivo de conseguir vantagens pessoais".

A decisão do ministro de pedir a prisão preventiva, portanto, ao menos em tese, não deveria surpreender ao bolsonarismo. Afinal, parece simplista achar que Flávio Bolsonaro nunca imaginou que o desfecho de seu vídeo poderia ser este e que tudo não passou de um grande tiro no pé.

Chama atenção o fato de que Flávio seja o protagonista deste novo fato político que, inegavelmente, serve de motor para ativar a militância bolsonarista.

Seu nome passou a aparecer com frequência como potencial candidato à Presidência da República, aquele com melhores condições de preservar o nome Bolsonaro nas urnas da corrida eleitoral do ano que vem.

Seu irmão Eduardo chegou a requerer esse título. Mas sua própria ofensiva em defesa do nome da família – que o levou aos Estados Unidos em uma tentativa de bolsonarizar ninguém menos que o presidente americano Donald Trump – acabou naufragando.

O resultado dos acontecimentos desta manhã é que Flávio se torna uma espécie de novo líder da resistência ao Supremo Tribunal Federal (STF). Passa a ser o porta-voz junto à mesma parcela da população que apoiou irrestritamente o ex-presidente Jair Bolsonaro da presidência até a prisão.

É também um sinal de uma aposta na polarização política. Na ideia de que o nós contra eles vai prevalecer nas urnas no ano que vem.