Clarissa Oliveira
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Clarissa Oliveira

Viveu seis anos em Brasília. Foi repórter, editora, colunista e diretora em grandes redações como Folha, Estadão, iG, Band e Veja

Análise: Reunião cancelada é prato cheio para o jogo político do tarifaço

Confronto entre direita e esquerda fala mais alto e joga para segundo plano a agenda comercial entre Brasil e EUA

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A decisão do governo dos Estados Unidos de cancelar a reunião virtual que ocorreria entre o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, cai como um enorme balde de água fria sobre as negociações envolvendo o tarifaço imposto ao Brasil pelo governo de Donald Trump. Aquela parecia ser a mais promissora janela de diálogo. Um pontinho de esperança para milhares de produtores que até agora não conseguem dimensionar o impacto das tarifas sobre seus negócios.

Era um respiro também para o governo Lula, que vinha tentando sem sucesso abrir um canal com os Estados Unidos. Haddad parecia finalmente ter sido bem-sucedido em um esforço que transcorria havia várias semanas, um longo período em que as equipes da Fazenda e do Tesouro americano mantiveram contato permanente à espera de uma conversa formal.

Pelo pouco que se sabe até agora, a reunião foi cancelada poucas horas depois de ter sido anunciada publicamente por Haddad. Ou seja, a notícia de que aquela única janela tinha se fechado é conhecida do governo, pelo menos, desde a semana passada. Mas Haddad só veio a público ontem.

A versão difundida pelo ministro e pelo governo federal como um todo é a de que o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), teria agido assim que tomou conhecimento da reunião e convencido interlocutores no governo Trump a trabalharem contra a agenda. Eduardo negou ser o motor do cancelamento. E, subindo o tom, disse que o dono do “fracasso” é o próprio Haddad.

Fato é que o cancelamento da reunião se encaixa no jogo político de ambos os lados. De quebra, alimenta um confronto direto entre Haddad e Eduardo.

Pela ótica governista, Eduardo Bolsonaro de fato foi para os Estados Unidos justamente para liderar uma ofensiva que envolve estimular o governo Trump a apoiar seu pai diante dos processos contra ele no STF (Supremo Tribunal Federal). E diz abertamente que trabalha por sanções americanas. Por isso, seria ele o autor natural de uma ofensiva para dificultar o diálogo do governo brasileiro com a gestão Trump.

Mas a dinâmica e os prazos envolvidos no cancelamento da reunião tornam plausível também a ideia de que a mudança repentina nos planos de Scott Bessent tenha mais a ver com o jogo político da própria Casa Branca. Afinal, esta não seria a primeira vez que o governo dos Estados Unidos constrange um interlocutor estrangeiro. E o jogo duplo do governo Trump é justamente o argumento dado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para não tentar um contato direto com seu par americano.

E também é possível que Bessent tenha sido desautorizado. Quem sabe até pelo fato de o próprio Haddad ter alardeado publicamente que o encontro virtual estava acertado. Encontro este que, diga-se de passagem, era uma sinalização relativamente discreta feita pelo secretário do Tesouro. Um encontro virtual, que poderia ou não evoluir para uma reunião de trabalho efetiva, como já vislumbrava o próprio Haddad.

Seja qual for a realidade dos fatos, é certo que o cancelamento da reunião joga por terra a estratégia comercial do Brasil. E contribui para trazer a política para o centro das discussões. Nas últimas semanas, o governo brasileiro falava em separar as coisas. Deixar o jogo político a cargo de Lula e passar a estratégia comercial para Haddad e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB). Cada um no seu quadrado. Ao menos até agora, o plano não vingou.