Cleber Rodrigues
Blog
Cleber Rodrigues

Gaúcho radicado no Rio. Há quase 20 anos traduzindo os fatos com leveza, responsabilidade e bons bastidores. Quase sempre acompanhado de um café.

Flávio lidera nos bairros mais pobres e Lula nos mais ricos no Rio

Levantamento cruzou resultados das eleições de 2026 com dados de renda do Censo 2022 e mostrou que apenas cinco dos 149 bairros da capital mudaram de partido mais votado para presidente desde 2022

O resultado da eleição presidencial de 2026 no Rio de Janeiro revela uma divisão territorial que acompanha a renda dos bairros da capital fluminense.

Um levantamento da inPulso.ai, feito com dados públicos do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e informações de renda do Censo 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mostra que Flávio Bolsonaro (PL) teve maior votação proporcional nos bairros de menor renda, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi mais forte nos bairros de maior renda.

Entre o quinto dos bairros com menor renda e o quinto com maior renda, Flávio passou de 51% para 41,3% dos votos válidos. Lula fez o caminho inverso: saiu de 41,2% para 49,7%. O levantamento considera os votos das seções eleitorais agregados por bairro e divide o eleitorado em cinco grupos de acordo com a renda média dos bairros.

Dos 149 bairros analisados, apenas cinco mudaram de partido mais votado para presidente: quatro passaram do PT para o PL e um fez o movimento contrário. Os cinco estavam a menos de três pontos percentuais de diferença entre os dois primeiros colocados em 2022 ou em 2026.

Em 2026, Flávio Bolsonaro foi o candidato mais votado em 85 bairros, enquanto Lula venceu em 65. Em 2022, Jair Bolsonaro havia liderado em 82 bairros e Lula, em 69.

“O Rio de 2026 votou, em grande parte, como o Rio de 2022. O que o mapa mostra com nitidez é uma clara linha socioeconômica: os dois principais candidatos caminham em direções opostas conforme a renda do bairro”, analisa Christiano Furtado Gomes, sócio-fundador da RVR1 | inPulso.ai.

Bairros em que Flávio Bolsonaro foi mais forte

  • Campo dos Afonsos: 69% dos votos válidos
  • Vila Militar: 63,2%
  • Vargem Grande: 60,2%
  • Barra de Guaratiba: 60,2%
  • Campo Grande: 58,7%

Bairos em que Lula foi mais forte:

  • Cosme Velho: 67,3% dos votos válidos
  • Glória: 65%
  • Laranjeiras: 64,8%
  • Lapa: 64,8%
  • Rocinha: 63,5%

A divisão territorial fica ainda mais evidente quando os diferentes cargos são comparados. O candidato mais votado para governador no município do Rio, Eduardo Paes (PSD), venceu em 128 dos 149 bairros, enquanto o PL foi o partido mais votado para presidente em 85 bairros.

“Uma eleição não produz um único mapa. Na mesma cidade, o PSD foi o partido mais votado para governador em 128 bairros, enquanto o PL foi o mais votado para presidente em 85. Isso mostra como cargos diferentes podem produzir geografias eleitorais diferentes, sem que possamos concluir que os mesmos indivíduos votaram de uma forma ou de outra”, afirma Gomes.

A diferença também aparece na comparação com o Legislativo. O partido mais votado para deputado federal coincidiu com o partido mais votado para presidente em 105 dos 149 bairros. Já os mapas para governador e deputado estadual apresentaram maior distância territorial.

O recorte por renda mostra ainda uma diferença importante na participação eleitoral. Para presidente, 6,5% dos votos de quem compareceu às urnas foram brancos ou nulos no quinto dos bairros de menor renda. Nos bairros de maior renda, o índice foi de 3,1%.

A distância aumenta na disputa pelo Senado: 23,7% dos votos foram brancos ou nulos nos bairros de menor renda, contra 10,4% nos de maior renda. O levantamento aponta que, em todos os cargos analisados, a incidência de votos brancos e nulos foi maior nos bairros de menor renda.

“No Senado, brancos e nulos chegaram a 23,7% nos bairros de menor renda e a 10,4% nos de maior renda. É uma diferença territorial relevante na forma de participação eleitoral, mas o dado, sozinho, não explica suas causas”, afirma Gomes.

Na cidade como um todo, os votos brancos e nulos para presidente representaram 5,1% dos votos de quem compareceu às urnas em 2026, contra 4,9% em 2022. A abstenção, por sua vez, passou de 24,1% para 26,1% do eleitorado.