Fernanda Magnotta
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Fernanda Magnotta

PhD especializada em Estados Unidos. Professora da FAAP, pesquisadora do CEBRI e do Inter-American Dialogue. Referência brasileira na área de Relações Internacionais

Análise: A cruzada de Trump contra a intelectualidade

Por meio da eliminação ou instrumentalização política de instituições centrais, a administração Trump busca moldar uma nova hegemonia cultural

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Desde assumiu o seu segundo mandato, Donald Trump desencadeou uma ofensiva sistemática contra pilares centrais da vida intelectual e cultural norte-americana.

Sob o pretexto de restaurar o que considera a “sanidade institucional”, o governo tem promovido, por meio de ordens executivas e cortes de financiamento, uma erosão deliberada da educação superior, da liberdade acadêmica e da diversidade cultural nos Estados Unidos.

A decisão de iniciar o fechamento do Departamento de Educação representa um retrocesso sem precedentes na história moderna do país.

A devolução da autoridade educacional aos estados e municípios, à primeira vista uma celebração do federalismo, na prática compromete o acesso equitativo à educação de qualidade, acentuando disparidades regionais e vulnerabilizando populações historicamente marginalizadas.

No plano universitário, a cruzada ideológica do governo se manifesta em ações diretas contra instituições tradicionais do saber.

Columbia e Harvard, símbolos da excelência acadêmica global, foram alvos de retaliações financeiras e pressões políticas explícitas.

Condicionar o financiamento à revisão de currículos, políticas internas e programas de diversidade representa uma afronta direta à autonomia universitária, pilar essencial da liberdade intelectual.

O cerceamento das manifestações estudantis é ainda mais alarmante.

A revogação de vistos de mais de 300 estudantes internacionais envolvidos em protestos pró-Palestina, a ordem executiva que determina a deportação de manifestantes estrangeiros e o programa “Catch and Revoke”, que usa inteligência artificial para monitorar redes sociais em busca de “postagens anti-Israel”, configuram práticas típicas de regimes autoritários.

Criminalizar a dissidência política e ideológica sob o pretexto de combater o antissemitismo desvirtua o princípio democrático do direito à livre expressão e revela uma postura cada vez mais persecutória do Estado em relação à juventude acadêmica.

A paralisia de diversos programas da Fulbright, marca histórica da diplomacia educacional dos Estados Unidos, também acentua essa tendência.

O congelamento de bolsas, a imposição de restrições semânticas — como a eliminação do termo “mudança climática” — e os impactos diretos em projetos internacionais revelam o isolamento crescente do país de seus parceiros mais estratégicos.

Esta medida mina décadas de construção de soft power e prejudica a reputação internacional dos Estados Unidos como farol de conhecimento e liberdade.

O ataque se intensifica em múltiplas frentes.

O fechamento do United States Institute of Peace (USIP), os cortes drásticos no Wilson Center, a intervenção política no Kennedy Center e a tentativa de eliminar o Institute of Museum and Library Services (IMLS) demonstram um esforço sistemático de desmonte das instituições responsáveis por fomentar a reflexão crítica, a cultura da paz e a preservação da memória histórica.

A ordem executiva que obriga o Instituto Smithsonian a expurgar “ideologias impróprias” de seus museus, com censura explícita a temas como a história afro-americana e os direitos das mulheres transgênero, revela o projeto de reescrever a história do país sob uma ótica reacionária.

Por fim, o cancelamento dos subsídios da National Endowment for the Humanities (NEH) atinge o âmago da produção cultural independente, afetando diretamente comunidades que dependem desses recursos para fomentar a arte.

Essas ações, somadas, não são episódicas ou desconexas.

Elas compõem uma estratégia coerente de desmonte da infraestrutura do conhecimento, da diversidade e da cultura nos Estados Unidos.

Por meio da eliminação ou instrumentalização política de instituições centrais, a administração Trump busca moldar uma nova hegemonia cultural — excludente, revisionista e intolerante ao dissenso.

As consequências dessa política vão muito além do território norte-americano.

Em um mundo interdependente, a deterioração da capacidade intelectual e cultural dos Estados Unidos enfraquece o próprio sistema internacional liberal, historicamente ancorado em valores como liberdade acadêmica, intercâmbio cultural e diversidade de pensamento.

A comunidade acadêmica internacional, os defensores dos direitos humanos e todos aqueles comprometidos com a promoção do conhecimento e da cultura deveriam permanecer vigilantes, pois o que está em jogo é a própria sobrevivência de um espaço público global livre, plural e democrático.