Fernanda Magnotta
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Fernanda Magnotta

PhD especializada em Estados Unidos. Professora da FAAP, pesquisadora do CEBRI e do Inter-American Dialogue. Referência brasileira na área de Relações Internacionais

Análise: Cuba é a próxima

Trump indicia Raúl Castro, manda um porta-aviões ao Caribe e anuncia que quer uma "tomada" da ilha. Não é política externa; é um roteiro.

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Numa semana em que o mundo acompanhava a cúpula entre Trump e Xi em Pequim e os desdobramentos da guerra com o Irã, o governo norte-americano encontrou tempo para anunciar o indiciamento de Raúl Castro, de 94 anos, por um episódio de 1996.

Quatro aviões da organização “Irmãos ao Resgate” foram abatidos por caças cubanos sobre o estreito da Flórida, matando quatro homens, três deles cidadãos americanos. O caso é real, mas a escolha do momento para transformar um crime de três décadas em ato de acusação formal não tem nada de acidental.

No mesmo dia em que o Departamento de Justiça anunciou as acusações em Miami, o Comando Sul divulgou com pompa a chegada do grupo de ataque do USS Nimitz ao Caribe.

O porta-aviões mais antigo da marinha norte-americana, em sua última missão operacional antes de ser descomissionado, posou para a foto. A mensagem não foi para Havana. Foi para Moscou, para Caracas, para Pequim e para o eleitorado cubano-americano de Miami-Dade: os Estados Unidos estão “de volta ao quintal”.

Para entender o que está acontecendo, é preciso ler ao mesmo tempo três camadas sobrepostas: a geopolítica, o cálculo eleitoral e a estética de poder que Trump transformou em método de governo.

A camada geopolítica é a mais fácil de nomear. O governo norte-americano enquadra Cuba como parte de um conjunto mais amplo que inclui Venezuela, Rússia, China e crime organizado no Caribe.

Depois de depor Maduro na Venezuela, Trump disse publicamente que "Cuba é a próxima", frase pronunciada em Miami, em março, depois de exaltar as ações militares norte-americanas no Irã.

A Rússia reagiu dizendo que apoiará a ilha contra o "aperto" de Washington. O roteiro se completa: Cuba vira palco de uma disputa hemisférica maior, e Trump vira o protagonista que os presidentes anteriores não tiveram coragem de ser.

A camada eleitoral é ainda mais direta. A Flórida deixou de ser estado disputado há anos: Trump venceu o estado por 13 pontos em 2024, incluindo Miami-Dade. Mas o eleitorado cubano-americano continua sendo uma base que precisa ser alimentada.

Uma pesquisa da Universidade Internacional da Flórida mostrou, em 2024, que 68% dos cubano-americanos prováveis eleitores em Miami-Dade apoiavam Trump, contra 23% para Kamala Harris. Esse eleitorado não quer gestos simbólicos.

Quer ver ação, pressão e, se possível, o colapso do regime que expulsou as famílias deles da ilha. O indiciamento de Raúl Castro é um presente direto para essa base.

Marco Rubio é o operador preciso dessa equação. Filho de imigrantes cubanos, senador pela Flórida por mais de uma década antes de virar Secretário de Estado, ele combina em uma só figura três ativos: identidade, base política e poder diplomático.

Foi ele quem anunciou sanções contra o complexo militar-industrial cubano, foi ele quem disse ao Congresso que o governo "adoraria" ver uma mudança de regime em Cuba, e foi ele quem, esta semana, descartou a probabilidade de um acordo negociado, mesmo dizendo que a diplomacia seria a preferência dos Estados Unidos.

Rubio traduz Cuba para Trump como pauta de segurança nacional, mas também como pauta identitária da direita da Flórida, e as duas coisas, para ele, são inseparáveis.

A terceira camada é mais difícil de nomear sem cair no reducionismo. Não dá para provar intenção, mas o efeito político é claro: a crise com Cuba desloca o debate público para segurança nacional, ameaça externa e força presidencial num momento em que Trump acumula pressões internas, incluindo a crise de “custo de vida” e o caso Epstein.

Democratas já protocolaram uma resolução de poderes de guerra para limitar qualquer ação militar contra a ilha sem aprovação do Congresso, o que por si só mostra que o tema já virou disputa institucional em Washington, não apenas retórica.

O que Trump está fazendo com Cuba tem uma lógica interna que não depende de uma invasão acontecer, embora ao menos um ataque aéreo seja cada vez mais provável. O indiciamento cria um pretexto jurídico.

O porta-aviões cria uma presença visual. A retórica cria a narrativa de um presidente que age onde outros recuaram. A ambiguidade é parte do método.

Cuba é a próxima porque, para Trump, Cuba sempre foi também isso: um símbolo. De força, de revanche histórica e, mais prosaicamente, de política da Flórida, que hoje está no centro de poder da Casa Branca.